23 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Vinte e três

 Míriam não retirava seu olhar da amiga, estava tão fisurada naquele beijo ocorrido que sentia como se desejasse mais um. Caminharam pela praça tomando um sorvete sem muito sobre o que conversar, observavam os carros passando e alguns conhecidos passeando pelas ruas.

- Eu contei para minha mãe...

- Contou o quê?

- Sobre você gostar de mim.


Míriam ficou preocupada com o que acabara de ouvir, as duas sentaram em um banco para prosseguir o assunto. Ana percebeu que a notícia não havia deixado a amiga feliz e suspirou fundo olhando para o chão.

- Eu sei que não devia, até porque minha mãe não teve das melhores reações.

- O que ela disse?

- Para eu me afastar de você.

- Por que você contou à ela? Isso só a deixou ainda mais contestada com nossa amizade.

- É que pensei que... ela me ajudaria...

- Te ajudar com o quê?

- Eu fiquei muito confusa quando você revelou que estava gostando de mim, precisava de um conselho da minha mãe.


Míriam fechou os olhos por um instante, assentindo pela situação. Ela nunca teve uma mãe presente, reconhece que sua amiga não estava nem um pouco errada, mas possuía ainda um grande medo em perde-la.

- Eu fico feliz por saber que sua mãe ao menos se importa com você...

- E a sua? Você nunca me apresentou seus pais.

- É difícil, meu pai deixou minha mãe grávida solteira e ela viajou para o exterior em busca de emprego. Então passei a morar com minha avó e meu irmão de consideração.

- Consideração?

- Sim. Minha avó praticamente o adotou. Era filho de uma conhecida que já morreu.

- Mas isso não o faria ser como um tio?

- Não, minha avó agora é minha mãe, então pela lógica o garoto é meu irmão.

- Entendo... eu não imaginava que tivesse uma história tão confusa assim...

- Pois é...


Ficou um silêncio apavorante por alguns minutos, não das coisas que estavam acontecendo ao redor, mas entre elas. Ana notou uma coisa no rosto de Míriam que nunca havia percebido antes, então levou sua mão ao queixo da jovem e suspirou sorrindo.

- Eu não sabia que tinha isso.

- Isso o quê?

- Um queixo tão lindo.


Míriam franziu a testa confusa porque do nada Ana havia falado aquilo. Poderia ser espantoso como sua amiga a elogiou carinhosamente depois de tanto fugir deste amor que estava tentando manter com ela, mas dava para notar que os olhos de Ana brilhavam e diziam que alguma coisa mudou em seu coração.

- V-ocê acha meu queixo lindo?

- Sim. E o meu? É lindo também?

- Sim, Claro! É muito lindo.


As duas riram juntas e se entreolharam tocando as mãos. Os dedos se fechavam entre eles e suas peles ficaram arrepiadas com aquela sensação emocionante que sentiam dentro delas. Ana estava corada, suas bochechas pareciam dois tomates e ficaram ainda mais vermelhas depois que Míriam se levantou para dizer algo;

- Vamos para um lugar mais... afastado?

- Afastado? Onde?

- Não sei, talvez... uma rua menos iluminada ou algum canto da praça sem movimento.

- S-sim... pode ser. 


Ana acompanhou a amiga até um beco onde não havia ninguém e encarou a garota confusa. _O que será que ela quer? O que faremos aqui? Acho que eu deveria voltar para casa..._

- Está tudo bem Ana?

- Sim... estou, porquê?

- Você parece preocupada.

- Não seria melhor voltarmos para a praça?

- Mas é que as pessoas por lá não se sentiriam bem com a nossa presença...

- Como assim?

- Você me entende Ana, o preconceito... É dele que estamos fugindo.


Míriam abraçou forte a amiga e algo escorreu por seu rosto, era úmido e havia pingado sobre a camisa de Ana. 

- Está chorando?

- Foi... só um cisco no olho.

- Não fique assim. Sabe que eu não vou te abandonar né? Você está sendo mais do que uma amiga para mim.

- Eu sei... que você pode estar sentindo por mim o mesmo que sinto por você, mas não é disso que me preocupo. Sua família, não deve se afastar dela... Mesmo que eles não compreendem suas escolhas.

- Posso até não me afastar dela, mas não serei obrigada a concordar com tudo o que eles dizem. Afinal, cada um faz suas escolhas e vive como deseja.

- Então está querendo dizer que... Isso significa que quer mesmo... ficar comigo?




11 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Vinte e dois

Ana voltou para casa e tentou falar com sua mãe e implorar que a deixasse sair com sua amiga para passear na praça. A mulher estava confusa com aquilo, sua filha nunca gostou muito de andar com amigos de noite em passeios, talvez porque nunca tivesse um amigo verdade mas agora que sabia que estava se enturmando com uma garota que poderia facilmente leva-la para um "caminho diferente" ficou preocupada.

- Por que deseja tanto sair com essa garota? 

- Ela é minha amiga.

- Mas você mesma me disse que ela quer outra coisa com você.

Ana suspirou fundo e revirou os olhos. Se de fato estivessem afim de ter alguma coisa uma com a outra mesmo assim não seria problema algum, mas sua mãe era tão rígida que isso poderia facilmente iniciar uma discussão séria.

- Mãe eu já tenho 16 anos, preciso aprender a seguir meus caminhos sozinhas. Haja o que houver a senhora precisa saber que eu e Míriam não vamos acabar com nossa amizade.

- Você ainda é uma adolescente! Acabou de sair das fraldas. Não quero ver filha minha se envolvendo com coisa errada e acabar virando piada na cidade.

- E quem disse que amar é errado?

Aquelas palavras que lhe escapou pela boca havia a deixado tão surpresa quanto sua mãe. Parece que acabou de admitir o que sentia pela amiga, mas não era muita novidade para si mesma, apenas preferia não ter dito à ninguém.

- Eu vou nem que seja fugindo!

- Vai mesmo me desobedecer? Se seu pai souber...

- Ele não é como a senhora e provavelmente vai me entender. Agora me deixe tomar um banho!

A garota saiu furiosa andando pela casa indo em direção ao banheiro. Enquanto se arrumava para o passeio Míriam estava tentando escolher uma roupa bem diferente para sair com ela, talvez com algo mais fofo ou meigo faria Ana se sentir mais confortável ao seu lado.

Ela dará o possível para que aquela noite se torne melhor que os dias anteriores e seja uma das mais inesquecíveis de sua vida.

Ao chegar às 20:00 h, Ana tentou mais uma vez ganhar a confiança de sua mãe. Ainda estava sendo difícil e impossível então sua única ajuda seria do pai, que acabava de sair do banho e foi interrogado pela filha antes de cruzar o corredor para o quarto.

- Está tudo bem minha pequena?

- Não pai, minha mãe não quer deixar eu passear com minha amiga só porque será hoje à noite no parque.

- Mas porque ela não quer deixar?

- Por que é minha primeira vez saindo com alguém, eu teria meu primeiro passeio com uma amiga...

O homem olhava para a filha com pena e sorriu para ela seguindo em direção ao quarto para vestir a roupa. Ana ficou triste por não receber nenhuma resposta do pai e caminhou até a sala para sentar no sofá com uma cara de cão doente. 

Ficou assistindo TV por alguns minutos, sem nada interessante para fazer e esperando que sua mãe acabasse mudando de ideia.

- Filha?

- Pai?

O homem se aproximou dela com a chave do carro na mão e a chamou para levantar do sofá.

- Vou te levar se quiser. 

- Mas e a mamãe?

- Depois converso com ela, vamos? 

- Sim!

Ana entrou no carro sorrindo e ajeitou o cinto de segurança. Estava animada para ver Míriam e poder comprar alguns sorvetes na praça. Não demorou muito até chegar na casa dela e bater na porta a chamando.

A garota estranhou quando viu a amiga chegando de carro, abriu a porta imediatamente e ficou feliz por saber que poderiam fazer o passeio naquela noite.

- Está pronta?

- Sim estou... O que achou da minha blusa branca?

- Prefiro quando veste aquelas escuras, é mais sua cara.

As duas riram e saíram para fazer a longa caminhada de ida à praça, não ficava tão longe assim mas o trânsito não ajudava muito.



10 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Vinte e um

Carol sentia um gosto meio amargo na boca, estava ferida mas não queria parar até conseguir machucar sua inimiga. Ana estava preocupada ao ver Míriam se arriscando, mesmo que esteja sendo impressionante como ela se mostrava mais forte que a outra.

- O que está acontecendo aqui?

Todos ficaram em silêncio quando uma mulher alta se aproximou os encarando furiosa. Míriam se afastou de Carol deitada no chão e respirou fundo olhando para a diretora.
- Me desculpe...
- Você agrediu sua colega!
- Ela não é minha colega...
- Quero as duas na minha sala agora!

Paula ajudou a amiga a se levantar do chão, estando com um hematoma no rosto. Sua respiração estava ofegante e abaixou a cabeça sem desejar visualizar os olhares dos demais estudantes ao redor.
- Ela queria acabar comigo diretora. A senhora devia dar uma suspensão para ela.
- Venham comigo! Agora!

Míriam acenou com a cabeça e foi ao lado da outra caminhando até a sala onde jamais queriam estar. Ana viu seus colegas entrarem na sala para iniciar a aula mas continuou parada no corredor, processando aquela briga que assistiu minutos atrás. Nunca imaginou que sua amiga fosse capaz daquilo e tivesse uma força brutal mas mãos, mas uma parte dela estava feliz, porque finalmente pôde ver Carol ser apunhalada em sua frente.

Após a aula acabar Ana procurou por Míriam pela escola, não tinha notícias do que foi feito com as duas, precisava voltar logo para casa e ligar para a amiga. Seu pai não demorou muito para chegar, no caminho ela retirou o celular da mochila e enviou uma mensagem para Míriam:

Como você está? A diretora te deu suspensão?

A garota não estava online e isso a preocupava. Após o almoço saiu novamente com seu cachorrinho como pretexto para ve-la, talvez sua mãe ficaria desconfiada se dissesse que iria até a amiga depois daquilo que havia contado à ela.
Andou alguns quarteirões até achar a casa de Míriam e se aproximou da janela da sala para verificar se ela estava lá. Parece que a menina ajudava a avó limpando o chão da casa, não queria interromper ou atrapalhar, mas precisava conversar com ela.

Bateu devagar na porta e esperou alguém abrir. Míriam suspirou fundo ao vê-la e caminhou até Ana surpresa com sua vinda.
- O que faz aqui?
- Ue eu vim ver se estava tudo bem com você. Não esteve online durante as últimas horas... A diretora te deu suspensão?
- Sim, de quatro dias.
- E quanto à Carol?
- A mesma coisa também.

Ana compreendeu o fato e ainda segurando a coleira de Fuxico olhava para a amiga em sua frente.
- Você não precisava ter feito aquilo.
- Só quis te proteger... Mas tem razão, eu não deveria ter feito isso. Não vou receber nada em troca...
- N-ão foi isso que eu quis dizer, eu... fico muito muito grata por sua coragem de enfrenta-la. Me impressionei com seus golpes. Já praticou alguma aula de karatê?

Míriam riu negando e suspirou fundo olhando para trás, se afastou da porta levando a amiga para um canto mais afastado no quintal e abaixou a cabeça para responder.
- Eu vim de uma escola onde os meninos gostam de fazer gracinha com as garotas. Eu não era nem um pouco piedosa com eles, aprendi a me defender e dava altas porradas em todo mundo.
- Nem parece que você é do tipo que adora uma briga.
- Você acha que não? Eu já tive vários apelidos estranhos por causa disso.
- Me diga um deles.
- Não, melhor não.

As duas riram juntas e ficaram se olhando por um tempo. A avó de Míriam a chamou para terminar de organizar a casa, a garota gritou pedindo para ela esperar e voltou sua atenção para Ana desejando falar uma última coisas antes dela ir.
- Você vai estar ocupada esta noite?
- Não porquê?
- Que tal um passeio pelo parque?
- De noite? Não é perigoso?
- Não precisa ficar preocupada com isto, já disse que sou capaz de bater em qualquer um então isso não será nenhum problema.

Ana assentiu sorrindo e foi caminhando lentamente se afastando da residência.
- Vou ver com minha mãe, se pudermos... Às 20 horas seria melhor.
- Ok. Às 20 horas! estarei te esperando aqui para irmos.
- Está bem.

09 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo vinte

 Fuxico latiu à aproximação de pessoas fazendo com que as duas garotas se afastassem assustadas e preocupadas com os olhares de estranhos. Míriam viu um casal de adultos passar desejando que eles não tivessem visto nada, isso não importava muito desde que julgamentos não sejam ditos.

Ana abaixou a cabeça um pouco envergonhada, não imaginava que algum dia isso aconteceria em sua vida, que sentiria ser beijada por uma pessoa como ela... uma outra garota.

- Está tudo bem?


Míriam se aproximou novamente observando aquele rosto caído de bochechas vermelhas.

- S-sim... A gente não deveria...

- Por que não? Não estamos fazendo nada de errado. Não somos ladras, assassinas ou coisa do tipo, apenas nos beijamos.

- É que... se meus pais descobrirem... 

- O que eles farão?

- Eu não sei...


Ana se levantou do banco pegando na coleira do cachorro para sair da praça, tentou se afastar o bastante mas Míriam lhe puxou pelo braço para impedi-la.

- Espere! Mesmo depois disso você ainda está tentando me evitar? 

- Você está confundido amizade com outra coisa! Eu não deveria ter aceitado o que fez comigo.

- Eu não estava te segurando, você poderia ter fugido naquela hora!


Ana não sabia o que estava sentindo, se gostava daquilo ou tentava esquecer, o que na verdade era impossível porque além se der seu primeiro beijo ainda foi maravilhoso. Soltou seu braço da mão de Míriam e correu com seu animalzinho para fora da praça, o que deixou a amiga desapontada e mais pior do que esteve horas atrás.


Ao chegar em casa Ana tentou não contar nada ao seus pais, infelizmente não tinham capacidade para compreender... Ela passou aquele resto do dia com a cena em sua cabeça, até o momento em que foi deitar para dormir, tão confusa de querer aceitar que tenha gostado de uma coisa que nunca tinha sido sua motivação.

No dia seguinte não poderia faltar à aula, mas ficava imaginando como Carol havia sobrevivido hoje sem sua presença, já que Ana embora seja alguém que menos goste não teria outra pessoa para provocar naquela escola. 


Meia hora antes do sinal tocar Míriam encarou Ana que passava pelo corredor entre as salas, seu coração estava um pouco apertado mas sua memória feliz por imaginar um desejo que se realizou por alguns instantes do dia passado.

Ana abaixou o olhar para continuar a seguir em frente e entrar na sala, mas pisou em alguma coisa no caminho e acabou tropeçando e caindo no chão.


Carol sorriu após retirar seu pé do local e fez os demais alunos ao seu redor rirem demasiado. Míriam não ficou parada ao ver cena, se aproximou de Ana para ajudar a levanta-la.

- Não pre-cisa... 

- Você se machucou?

- Não... só... bati um pouco...


Míriam caminhou até Carol olhando em seus olhos de peste de urubu e bufou de ódio cerrando os punhos.

- Faz de novo faz. Você não sabe do que sou capaz...

- Não tenho medo de uma emo horrosa! Principalmente quando é lésbica apaixonada pela amiguinha sonsa.


Ana as observaram tensa, sabia que isso não ia acabar bem e que estavam sendo expostas ao ridículo. Daniley percebeu que Míriam estava chamado a amiga para uma briga e se aproximou de seu ouvido para sussurrar:

- Melhor não se atrever... pode acabar dando ruim para você Carol.

- Cala a boca, eu vou arregaçar essa idiota e não quero ninguém atrapalhando.

- Mas...


Míriam a puxou pela camisa com uma fúria nos olhos a ponto de querer lhe socar naquele momento.

- Nunca mais mecha com Ana! Você não é digna de atenção alguma.

- Não toque em mim! Você está pedindo para ser esmurrada!


Carol a empurrou até uma parede e se aproximou para dar um forte tapa em seu rosto, a outra lhe segurou pela mão e girou seu braço tentando paralisa-la. Ana tremia em um canto enquanto assistia a briga e a turma toda gritava por aquilo em voz alta:

- Briga! Briga! Briga! Briga!


Míriam lhe acertou com um chute na perna esquerda e deu um forte soco no cotovelo.

- Posso levar suspensão mas não te deixarei ilesa!

- Sua idiota! Vai se arrepender de ter me puxado a camisa!


Os gritos ecoavam pelo corredor até chegar no escritório da diretora. Ela estranhou o barulho e se levantou da cadeira para ver o que estava acontecendo.

08 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Dezenove

 Ana não conseguia parar de encarar Carol durante a última aula, sua inimiga parecia satisfeita com o que tinha feito, mas não sabia que isso não importava mais nada para ela. Ana ainda podia estar triste com o ocorrido mas não precisava mais se preocupar em cair nas sacanagens de uma menina tão infantil.


Ao encerrar a aula voltou para casa sem muito ânimo e sentou sobre a cama para refletir sobre aquele dia. Estava tão confusa que nem almoçou direito, sua mãe preocupou com a aparência desgastada da filha e tentou tirar uma resposta dela na hora jantar.

- O que aconteceu com você?

- Não quero falar...

- Seu pai vai voltar daqui a pouco então se quiser contar só para mim precisa dizer antes...


Ana suspirou fundo trêmula e levantou os olhos para a mãe do outro lado da mesa.

- Míriam gosta de mim, mas eu não sei o que fazer.

- Su... sua amiga gosta de você? 

- Sim mãe, mais do que como uma amiga. Isso é errado?


A mulher negou com a cabeça mas ao mesmo tempo parecia querer demonstrar o contrário. Ela não imaginava ouvir isso de sua filha, mas pensava que poderia ser um alívio não ser ela quem gosta da amiga.

- Você tem certeza disso? Ela... te disse isso?

- Sim mãe. Eu não queria deixar de ser amiga dela, mas eu não sei como fazer para não te-la distante de mim... Eu não sei se quero sentir por ela o mesmo.

- Minha filha... Eu não sei o que dizer, não que eu esteja sendo preconceituosa mas...

- Mas?

- Você sempre gostou de meninos né? Você não precisa tentar gostar de algo se não é o que deseja. Só quero ver minha filha feliz e se uma amizade te deixa assim tão dividida é melhor que encontre uma nova amiga.


Ana encarou o prato pensando naquelas palavras e se levantou da cadeira para sair da cozinha. A noite passou igual como sempre, dormir pouco fazia mal para ela. Com Míriam também não era diferente, algumas vezes chegava à dormir no sofá da sala enquanto assistia TV em algum canal aleatório.

Na manhã seguinte nenhuma das duas quis ir à escola, Carol se sentiu feliz com isto como se lhe tirassem uma pedra do sapato. A mãe de Ana faltou pouco para bater nela, não desejava ver a filha perdendo um dia de aula por uma bobeira qualquer.


Ana passeou com seu cachorrinho pela praça perto de sua casa, havia um jardim pouco cuidado e os bancos eram velhos e sujos. Podiam dizer que o lugar era abandonado, mas na verdade ficava bastante movimentado de tarde e as pessoas não se importavam muito em zelar.

- O sol está quente né? Vou comprar um sorvete.


Caminhou até um carrinho de um senhor baixo e careca e sacou uma nota de dois Reais do bolso. 

- Quero um de baunilha com cobertura de chocolate.

- Está bem.


O homem preparou-lhe o sorvete e entregou sorridente. Ana sentou em um canto mais afastado para não ficar ouvindo o barulho das buzinas de carros que passavam próximos. Ao terminar de comer o sorvete deu a casquinha para Fuxico comer.

- Está dispensando a melhor parte?

- Que?


Ana escutou a voz de Míriam atrás do banco e virou o rosto para vê-la. A garota tinha olheiras debaixo dos olhos e vestia uma camisa larga preta.

- A casquinha do sorvete para mim é a parte mais gostosa.

- Se quiser posso comprar um para você também.

- Não precisa, quero outra coisa.


Ana fraziu a testa e Míriam sentou ao seu lado acariciando a cabeça do animalzinho.

- Está tudo bem com você? 

- Mais ou menos... Eu não dormi bem.

- Nem eu, como pode ver estou horrível hoje.


Ela riu olhando para a amiga e ficou analisando sua aparência também, que diferente dela estava com um batom rosa nos lábios e usava uma blusa amarela clara.

- Ainda somos amigas né?

- Pensei que... Queria outra coisa...

- Tipo o quê?


Ana imaginou que sua amiga estivesse se fazendo de boba agora, é claro que Míriam não mudaria de ideia de uma hora para outra.

- Esquece, acho que é melhor.

- Melhor? Tem certeza?


Míriam levou sua mão ao rosto de Ana acariciando suavemente, aquilo estava a deixando trêmula e tímida de continuar a encarar a garota. Suspirou fundo aproximando seu corpo dela sentindo as batidas do coração acelerar.

- Você ainda pode fugir se quiser, mas eu desejo que sinta antes de recusar uma próxima vez.

- An?


Ana percebeu seus lábios tocarem aos de Míriam e a viu fechando os olhos. É como se quisesse impedir que aconteça, como se aquilo fosse proibido ou uma manipulação da qual não queria estar submissa. Não era capaz de se afastar agora e nem de fugir, só de dava conta de que podia fechar os olhos também e deixar aquilo prosseguir até onde conseguiria.

Míriam a puxou um pouco mais perto e continuou um beijo que esperava à meses. Sentir a respiração da outra a deixava mais feliz e tranquila de que aquilo tudo não estava sendo apenas um sonho.



07 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Dezoito

 Míriam entrou no banheiro alguns minutos antes da aula retornar e estranhou ao ouvir um choro detrás de uma das portas. Ela se aproximou devagar e encostou a orelha para poder falar com quem estaria ali e escutar melhor.

- Oi está tudo bem? 

Ana estremeceu ao reconhecer a voz da amiga e suspirou fundo temendo que a encontrasse daquele jeito.

- Ei... eu perguntei se está tudo bem e se quiser posso chamar a diretora.

- Não...

Míriam arregalou os olhos descobrindo quem era atrás da porta, não sabia que insistia mais ou ignorava a garota que não soube lhe corresponder como queria...

O sinal havia tocado, as duas estavam sozinhas no banheiro e Ana precisava encontrar algum escape de toda a situação, a outra garota ainda sentia que precisava fazer algo por ela abandonando seu ego naquele momento.

- Ana... Você pode abrir a porta? 

- Me deixe sozinha!

- O que elas fizeram com você? Anda, abre esta porta!

- Não vou!

Míriam suspirou fundo e ignorou a negação, abriu a porta lhe encarando séria e estendeu à mão para ela.

- Ainda somos amigas, não? Por que você está chorando se agora pode namorar o garoto que sempre sonhou?

- Ele está com a Carol... ele me enganou...

Ana tremia de raiva e não deixava que seus olhos voltassem a ficarem secos, seu rosto estava cada vez mais úmido.

- Ele te disse isso ou foi aquela sonsa? 

- Eu vi... os dois se... beijando... As meninas me confirmaram antes...

- Quê? Você os viram se beijando? Onde estavam?

- Numa sala, que prefiro não lembrar.

Míriam se afasta rindo com seu ódio tasparecido no olhar, se apoiou na pia do lavatório e observou do espelho a amiga caminhando até ela.

- Eu te avisei não foi? E você ainda preferiu escutar eles... 

- Me desculpe Míriam... Eu sou muito burra mesmo!

- Não, você não é! Eles te manipularam o tempo todo e por isso você ficou assim! Não deve fazer da sua vida aquilo que os outros pedem, o que eles dizem ser o melhor para você sendo que não é! Você não precisa de um garoto mimado, popular que se acha incrível por pegar várias garotas se você pode se apaixonar por uma pessoa totalmente melhor.

Ana ficou parada sem saber o que responder, suas mãos agarravam-lhe os braços e sua cabeça estava mirada ao chão.

- Eu gosto muito e você Míriam, nunca tive uma amiga assim que realmente se importasse comigo. Alguém que sentiria algo por mim além de amizade... isso é um pouco estranho na verdade, e muito novo para mim...

- Não se preocupe, tudo tem o seu tempo.

Míriam deu um breve sorriso e se aproximou da amiga para dar lhe um forte abraço. Aproveitou daquele momento para poder sentir melhor um gesto de carinho que à muito tempo não recebia de alguém, e amaria poder ter esta sensação por mais tempo.

- Te amo Ana...

A outra apenas acenou com a cabeça sem poder responder com a mesma frase, ainda estava confusa com aquilo e precisava se afastar logo para voltar à aula.

- O sinal já tocou faz tempo.

- Ah... verdade. Vamos então, tenho uma atividade para entregar hoje.


02 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Dezessete

 Naquele longo intervalo as duas seguiam caminhos opostos pelo pátio do Colégio. Uma colega de Míriam até tentou conversar com ela para saber se estava tudo bem, mas não estava muito afim de responder.

Ana passou em frente à sala da direção e observou aquele sofá no canto, aquele mesmo local onde havia conhecido sua amiga... Ela não se sentiu muito bem em ficar mais alguns minutos parada ao lado dele, queria entender o que levou Míriam à sentir atração por ela, se para ela própria nunca se considerou atraente.


Carol e Miguel entraram numa sala vazia e fecharam a porta para uma conversa particular. A garota estava sorrindo mais do que o normal, talvez pensasse que sua ideias sem sentido estavam indo bem como queria.

- Qual é dessa vez? - o rapaz perguntou cruzando os braços.

- Você realmente gosta da Ana? Não acha que está perdendo tempo com aquela sem sal?

- Por que fala isso, se foi você mesma quem me empurrou para ela?

- Você sabe que isso foi apenas uma estratégia criativa, eu sei que às vezes se faz de bobo mas no fundo gosta de ser duro com os sentimentos das meninas.

- E o que quer dizer com isso?

- Que não precisa mais tentar algo com Ana, ela não nem te deu mole hoje cedo, algo aconteceu com aquelas duas... e tenha certeza de que suas chances com a garota não são mais as mesmas...


O cérebro de Miguel bugou naquele instante, ele estava tentando entender onde Carol queria chegar mas o que tinha de bonito tinha de lerdeza. Daniley e Paula estavam do lado de fora como planejado, elas avistaram Ana pelo corredor e a chamaram para aprontar.

- Ei! O que aconteceu com você hoje? Está tão caída... - Danilely perguntou.

- E desde quando se importa?

- Desculpa... eu... pensei que estava assim por causa do Miguel.

- Miguel? O que tem ele?


As duas amigas se entreolharam pensativas se deviam fazer neste exato momento o que tinham combinado. Ao ouvirem o som de algo por trás da porta elas sorriram certas de que era a hora.

- O que está acontecendo? Por que estão assim?

- Você não estava sabendo que Carol namorava Miguel?

- An!!??


A porta se entreabriu mostrando uma cena de beijo entre os dois, Carol parecia estar apaixonada com o que fazia e talvez o garoto mostrasse uma cara de espanto. Ana encarava aquilo com angústia e cerrou os punhos trêmula de ódio.

- Você me enganou este tempo todo???

- Ana? 


O rapaz se afastou de Carol ao ouvir sua voz, ele não sabia como reagir naquele momento.

- E-u... 

- Eu nunca gostei de você de verdade... 


Ana saiu chorando caminhando apressada pelos corredores deixando Carol e as outras rindo orgulhosas. Aquilo tenha sido uma das suas armações mais horríveis de todas, e com certeza a mais infantil que existe. 

A garota ruiva se escondeu no banheiro fechando a porta e sentou na tampa do vaso sanitário enquanto mais lágrimas caíam de seu rosto.


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