Carol comia um alface sem tempero, suas amigas estavam sentadas em uma mesa distante apenas a observando com pena, faziam dois dias desde que elas começaram a se afastar dela. A garota virou uma piada entre os colegas e tinha deixado de arrumar o cabelo como era acostumada.
Miguel bebia um Toddynho no canto do refeitório sentindo um peso enorme na consciência, muitos riam até, o fato de ter perdido uma menina linda para uma jogada idiota com uma garota sem noção.
Ana estava lá pegando o segundo prato no balcão, seu cabelo parecia mais sedoso e sua roupa mais ajustada. Alguma coisa mudou drasticamente nela, não foram os julgamentos e zombação alheia que a fizeram cair, ela se ergueu porque estava mais feliz do que nunca.
Sentou sobre uma das mesas vazias e sorriu para sua companheira do lado. Míriam beijou sua bochecha e voltou a comer do lanche que pegou.
- Daqui a pouco vou ter aula de Geografia, mas não consegui terminar o trabalho que o professor passou semana passada.
- Se quiser posso te ajudar agora antes do intervalo acabar?
- Não precisa, não vai dar tempo. Acho que vou reprovar na matéria.
- Eu não vou deixar uma coisa dessas acontecer! Não é porque não conseguiu antes que não vai fazer agora.
Ana se levantou e a chamou para acompanhar até sua sala, Carol as observava de longe se perguntando do porque escolheram isso. Por que Ana seria diferente dela e não namoraria o garoto que mais gostou na escola? Por que Míriam é tão amiga dela que a desejou mais que isso?
A mesma se levantou em seguida para segui-las à distância, as duas estavam sentadas em duas mesas da sala para escrever o que faltava do trabalho de Geografia. Carol se aproximou da porta para observar, talvez desejasse aprontar uma última coisa com elas.
Míriam suspirou fundo encarando uma página do livro, estava um pouco difícil falar sobre o atrito de placas tectônicas. Ao perceber que estavam sendo vigiadas por alguém olhou em direção à porta e viu Carol se escondendo do outro lado.
- O que você quer aqui?
- Nada... Só estava observando.
- Sei, você anda muito estranha ultimamente.
- Não estou estranha. Vocês que são estranhas.
Carol saiu de lá as deixando sozinhas, Ana sabia que algo estava acontecendo com a garota e não era apenas sobre o que passavam dentro da escola. Começou a questionar se houvesse crises lhe acontecendo. Ao final da aula Ana comentou com Míriam sobre isso e decidiram passar na casa de Carol para conhecer o lugar, elas nunca foram lá e nem imaginavam como era a casa.
Se aproximaram do quintal e ficaram perplexas com a imagem que viam, o lugar era sujo e mal cuidado e a fachada da residência estava em ruinas. Míriam olhava de baixo para cima estranhando aquela situação.
- Tem certeza de que aqui é a casa dela?
- Sim... É nesta localização.
- Carol não viveria em um lugar desses nem em um universo paralelo.
- Pois é... Mas vamos ver primeiro para ter certeza.
Ana bateu na porta da casa e esperou alguns minutos para alguém abrir a porta. Um homem barbudo e barrigudo esquisito as receberam com um olhar serio e desprezível, parecia que não estava nem um pouco gostando da presença delas.
- Quem são vocês e o que fazem aqui?
- A Carol mora aqui?
- Sim, vocês são colegas dela? O que aconteceu com ela? Onde ela está?
- É o que queremos saber. O senhor é pai dela?
- Padrasto, querem alguma coisa aqui?
- Não, podemos voltar mais tarde...
Se afastaram da casa entreolhando uma a outra, pensavam a mesma coisa e tinham uma ideia em mente. Quando encontraram Carol na calçada caminhando em direção a sua casa notaram que estava cabisbaixa e parecia triste com algo. Míriam a parou pegando em seu braço deixando a garota assustada e irritada.
- Ei me solta sua louca!
- Primeiro me fala, o que houve com você?
- Que? Como assim? Eu quem pergunto o que houve com vocês.
- Vimos que você tem um padrasto e sua casa é horrível. Nos diga sinceramente... Você já... foi tocada por ele?
Carol estremeceu e desprendeu seu braço das mãos de Míriam. Ana notou sua inquietação, de fato tinha algo errado com ela e não queria dizer á ninguém.
- Vocês... não deveriam tomar conta da vida dos outros.
- Embora não acredite, nos importamos com você.
- Por que? Nunca fui boa com vocês...
- Diga Carol, você foi ou não tocada por ele?
Ela não precisava responder, seus olhos começaram a lacrimejar e suas mãos tremerem. Era um medo notável, estava desejando correr das garotas e se esconder em algum lugar distante para não mostrar esse lado covarde dela. Queria parecer valente, melhor e mais forte que elas, mas sua mascara já estava caindo e revelava uma menina indefesa precisando de ajuda. Ana olhou em seus olhos úmidos e a abraçou sem hesitar antes que Carol pudesse impedir.
- Está tudo bem, não se preocupe vamos fazer alguma coisa para se livrar daquele homem. Se quiser pode ficar um pouco na minha casa hoje, minha mãe não vai se importar.
- Ma-as... porque... porque querem me ajudar?
- Porque estamos te dando uma nova chance. Nunca a odiamos, você é como nós, ninguém é melhor que ninguém neste mundo.
- Obrigada... e.. me desculpa...
...
Não pode acabar assim! Escritora parte 2 na minha mesa pra ontem!
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