08 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Dezenove

 Ana não conseguia parar de encarar Carol durante a última aula, sua inimiga parecia satisfeita com o que tinha feito, mas não sabia que isso não importava mais nada para ela. Ana ainda podia estar triste com o ocorrido mas não precisava mais se preocupar em cair nas sacanagens de uma menina tão infantil.


Ao encerrar a aula voltou para casa sem muito ânimo e sentou sobre a cama para refletir sobre aquele dia. Estava tão confusa que nem almoçou direito, sua mãe preocupou com a aparência desgastada da filha e tentou tirar uma resposta dela na hora jantar.

- O que aconteceu com você?

- Não quero falar...

- Seu pai vai voltar daqui a pouco então se quiser contar só para mim precisa dizer antes...


Ana suspirou fundo trêmula e levantou os olhos para a mãe do outro lado da mesa.

- Míriam gosta de mim, mas eu não sei o que fazer.

- Su... sua amiga gosta de você? 

- Sim mãe, mais do que como uma amiga. Isso é errado?


A mulher negou com a cabeça mas ao mesmo tempo parecia querer demonstrar o contrário. Ela não imaginava ouvir isso de sua filha, mas pensava que poderia ser um alívio não ser ela quem gosta da amiga.

- Você tem certeza disso? Ela... te disse isso?

- Sim mãe. Eu não queria deixar de ser amiga dela, mas eu não sei como fazer para não te-la distante de mim... Eu não sei se quero sentir por ela o mesmo.

- Minha filha... Eu não sei o que dizer, não que eu esteja sendo preconceituosa mas...

- Mas?

- Você sempre gostou de meninos né? Você não precisa tentar gostar de algo se não é o que deseja. Só quero ver minha filha feliz e se uma amizade te deixa assim tão dividida é melhor que encontre uma nova amiga.


Ana encarou o prato pensando naquelas palavras e se levantou da cadeira para sair da cozinha. A noite passou igual como sempre, dormir pouco fazia mal para ela. Com Míriam também não era diferente, algumas vezes chegava à dormir no sofá da sala enquanto assistia TV em algum canal aleatório.

Na manhã seguinte nenhuma das duas quis ir à escola, Carol se sentiu feliz com isto como se lhe tirassem uma pedra do sapato. A mãe de Ana faltou pouco para bater nela, não desejava ver a filha perdendo um dia de aula por uma bobeira qualquer.


Ana passeou com seu cachorrinho pela praça perto de sua casa, havia um jardim pouco cuidado e os bancos eram velhos e sujos. Podiam dizer que o lugar era abandonado, mas na verdade ficava bastante movimentado de tarde e as pessoas não se importavam muito em zelar.

- O sol está quente né? Vou comprar um sorvete.


Caminhou até um carrinho de um senhor baixo e careca e sacou uma nota de dois Reais do bolso. 

- Quero um de baunilha com cobertura de chocolate.

- Está bem.


O homem preparou-lhe o sorvete e entregou sorridente. Ana sentou em um canto mais afastado para não ficar ouvindo o barulho das buzinas de carros que passavam próximos. Ao terminar de comer o sorvete deu a casquinha para Fuxico comer.

- Está dispensando a melhor parte?

- Que?


Ana escutou a voz de Míriam atrás do banco e virou o rosto para vê-la. A garota tinha olheiras debaixo dos olhos e vestia uma camisa larga preta.

- A casquinha do sorvete para mim é a parte mais gostosa.

- Se quiser posso comprar um para você também.

- Não precisa, quero outra coisa.


Ana fraziu a testa e Míriam sentou ao seu lado acariciando a cabeça do animalzinho.

- Está tudo bem com você? 

- Mais ou menos... Eu não dormi bem.

- Nem eu, como pode ver estou horrível hoje.


Ela riu olhando para a amiga e ficou analisando sua aparência também, que diferente dela estava com um batom rosa nos lábios e usava uma blusa amarela clara.

- Ainda somos amigas né?

- Pensei que... Queria outra coisa...

- Tipo o quê?


Ana imaginou que sua amiga estivesse se fazendo de boba agora, é claro que Míriam não mudaria de ideia de uma hora para outra.

- Esquece, acho que é melhor.

- Melhor? Tem certeza?


Míriam levou sua mão ao rosto de Ana acariciando suavemente, aquilo estava a deixando trêmula e tímida de continuar a encarar a garota. Suspirou fundo aproximando seu corpo dela sentindo as batidas do coração acelerar.

- Você ainda pode fugir se quiser, mas eu desejo que sinta antes de recusar uma próxima vez.

- An?


Ana percebeu seus lábios tocarem aos de Míriam e a viu fechando os olhos. É como se quisesse impedir que aconteça, como se aquilo fosse proibido ou uma manipulação da qual não queria estar submissa. Não era capaz de se afastar agora e nem de fugir, só de dava conta de que podia fechar os olhos também e deixar aquilo prosseguir até onde conseguiria.

Míriam a puxou um pouco mais perto e continuou um beijo que esperava à meses. Sentir a respiração da outra a deixava mais feliz e tranquila de que aquilo tudo não estava sendo apenas um sonho.



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