Míriam não retirava seu olhar da amiga, estava tão fisurada naquele beijo ocorrido que sentia como se desejasse mais um. Caminharam pela praça tomando um sorvete sem muito sobre o que conversar, observavam os carros passando e alguns conhecidos passeando pelas ruas.
- Eu contei para minha mãe...
- Contou o quê?
- Sobre você gostar de mim.
Míriam ficou preocupada com o que acabara de ouvir, as duas sentaram em um banco para prosseguir o assunto. Ana percebeu que a notícia não havia deixado a amiga feliz e suspirou fundo olhando para o chão.
- Eu sei que não devia, até porque minha mãe não teve das melhores reações.
- O que ela disse?
- Para eu me afastar de você.
- Por que você contou à ela? Isso só a deixou ainda mais contestada com nossa amizade.
- É que pensei que... ela me ajudaria...
- Te ajudar com o quê?
- Eu fiquei muito confusa quando você revelou que estava gostando de mim, precisava de um conselho da minha mãe.
Míriam fechou os olhos por um instante, assentindo pela situação. Ela nunca teve uma mãe presente, reconhece que sua amiga não estava nem um pouco errada, mas possuía ainda um grande medo em perde-la.
- Eu fico feliz por saber que sua mãe ao menos se importa com você...
- E a sua? Você nunca me apresentou seus pais.
- É difícil, meu pai deixou minha mãe grávida solteira e ela viajou para o exterior em busca de emprego. Então passei a morar com minha avó e meu irmão de consideração.
- Consideração?
- Sim. Minha avó praticamente o adotou. Era filho de uma conhecida que já morreu.
- Mas isso não o faria ser como um tio?
- Não, minha avó agora é minha mãe, então pela lógica o garoto é meu irmão.
- Entendo... eu não imaginava que tivesse uma história tão confusa assim...
- Pois é...
Ficou um silêncio apavorante por alguns minutos, não das coisas que estavam acontecendo ao redor, mas entre elas. Ana notou uma coisa no rosto de Míriam que nunca havia percebido antes, então levou sua mão ao queixo da jovem e suspirou sorrindo.
- Eu não sabia que tinha isso.
- Isso o quê?
- Um queixo tão lindo.
Míriam franziu a testa confusa porque do nada Ana havia falado aquilo. Poderia ser espantoso como sua amiga a elogiou carinhosamente depois de tanto fugir deste amor que estava tentando manter com ela, mas dava para notar que os olhos de Ana brilhavam e diziam que alguma coisa mudou em seu coração.
- V-ocê acha meu queixo lindo?
- Sim. E o meu? É lindo também?
- Sim, Claro! É muito lindo.
As duas riram juntas e se entreolharam tocando as mãos. Os dedos se fechavam entre eles e suas peles ficaram arrepiadas com aquela sensação emocionante que sentiam dentro delas. Ana estava corada, suas bochechas pareciam dois tomates e ficaram ainda mais vermelhas depois que Míriam se levantou para dizer algo;
- Vamos para um lugar mais... afastado?
- Afastado? Onde?
- Não sei, talvez... uma rua menos iluminada ou algum canto da praça sem movimento.
- S-sim... pode ser.
Ana acompanhou a amiga até um beco onde não havia ninguém e encarou a garota confusa. _O que será que ela quer? O que faremos aqui? Acho que eu deveria voltar para casa..._
- Está tudo bem Ana?
- Sim... estou, porquê?
- Você parece preocupada.
- Não seria melhor voltarmos para a praça?
- Mas é que as pessoas por lá não se sentiriam bem com a nossa presença...
- Como assim?
- Você me entende Ana, o preconceito... É dele que estamos fugindo.
Míriam abraçou forte a amiga e algo escorreu por seu rosto, era úmido e havia pingado sobre a camisa de Ana.
- Está chorando?
- Foi... só um cisco no olho.
- Não fique assim. Sabe que eu não vou te abandonar né? Você está sendo mais do que uma amiga para mim.
- Eu sei... que você pode estar sentindo por mim o mesmo que sinto por você, mas não é disso que me preocupo. Sua família, não deve se afastar dela... Mesmo que eles não compreendem suas escolhas.
- Posso até não me afastar dela, mas não serei obrigada a concordar com tudo o que eles dizem. Afinal, cada um faz suas escolhas e vive como deseja.
- Então está querendo dizer que... Isso significa que quer mesmo... ficar comigo?
Autora não me torture assim
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