Um chá quente para me acalmar... mesmo que eu não consiga me esquecer do dia anterior...
Larissa, ainda lembro de nossos beijos, do calor da lareira enquanto líamos um poema de seu pai. Era tudo tão bom, que parecia mentira. Mas agora sei que é... Porque eu a vi exatamente naquele local, com outro alguém do seu lado. Eu não disse nada, porque minha palidez impedia, mas agora sinto pena de mim mesmo... Eu podia ter falado o quanto aquilo foi ruim... mas preferi o silêncio.
Encaro o espelho para enxergar além do homem de olhos castanhos e cabelo escuro, um jovem inconsolado.
Tu es hermoso!
Eu sei disso... e não devo me abalar. Abro meu armário e escolho um casaco marrom casual, uso do meu melhor perfume e penteio meu cabelo para trás.
Tenga una buena noche, señor. Digo para mim mesmo.
Em uma noite tão fria, saio de minha casa à procura de um bar ou um lugar para viver. A rua não está movimentada, o outono não parece ser uma época boa para sair, e não há muito o que fazer numa cidade pequena como Ronda. Seus pequenos vilarejos de casinhas brancas e uma população simpática me despertou desde sempre o desejo de permanecer até o fim de minha vida.
Um pequeno bar aparece à direita da rua... poucos são seus clientes. Entro e aceno com a cabeça para alguns conhecidos.
Soy el más nuevo aquí.
Todos esses homens chegam próximo aos quarenta anos. O barner é um senhor careca barrigudo, sempre com um sorriso largo no rosto. Me sento à uma cadeira próxima do balcão e peço uma bebida forte... da qual poucos encaram tomar.
- O que houve rapaz? - ele me encara rindo.
- Dias terríveis! - tomo um gole que desce rasgando.
Sinto minha garganta ranger, insuportavelmente.
- Foi uma garota? - ele coça a cabeça.
- E isso importa? - pergunto irritado.
- Ouço histórias cabulosas, mulheres fazem parte de todas. - sua risada é ridícula.
- Estou indo. - digo sentindo minha cabeça doer.
- Mas já? Tome mais um pouco para esquecer la chica !
- Não. Obrigado. - me levanto e entrego o dinheiro, caminho em direção à saída.
Aquela bebida me deixou um pouco zonzo... pois ando pela rua enxergando as luzes rabiscarem o horizonte. Prefiro olhar para o chão para ter cuidado de não tropeçar, um deslize e vou ao chão. Me sinto muito inseguro agora... não quero cair.
Um balão pequeno balança sobre o vento... e desce suavemente até chegar à minha frente. Abaixo e o pego. Vejo um bilhete amarrado e uma flor presa ao laço.
Qué es esto?
Me atrevo a ler a mensagem do lado de fora...
"De María Lina para quien está leyendo..."
Interessante ver uma carta pairar no céu e cair em lugar inesperado. Cheiro o envelope e passo a mão pelas dobras. Quem é a garota que escreveu isto? Esse perfume tão doce e uma flor dos belos campos espanhóis?
Era para esta carta estar aqui? De onde veio?
Olho para cima e só vejo as estrelas, e quase me esqueço que estava indo para casa. Levo comigo o bilhete e a flor... deixando para trás a bexiga e meus pensamentos melancólicos.
***
Sento em minha poltrona e analiso a folha. Abro o envelope e leio atenciosamente...
"No sé quien leerá esto... Pero estoy procurando por ayuda. Estoy presa en mi casa e no puedo salir para hacer nada..."
Fico espantado com as palavras desta desconhecida mulher. Sinto uma insegurança e um medo percorrer ao meu redor. Era um pedido de socorro ou uma piadinha de mal gosto?
Largo a carta encima de meu criado-mudo e meus pensamentos voltam no dia anterior... Quase choro novamente.
Entro em meu quarto e deito minha cabeça no travesseiro, cobrindo meu corpo com o veludo cobertor. Meus olhos se fecham aos poucos e me deixo repousar...
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