09 novembro 2020

As sete chaves do baú - Capitulo 2

 Rita levantou cedo, com o cantar dos pássaros numa manhã ensolarada. Caminhou até a sala de jantar para tomar seu café da manhã, sem demorar muito e aproveitou um ultimo minuto para se despedir de seu pai antes de partir.

- Pai, eu já vou indo.

- Mas sozinha? Mandarei que um soldado a guie pelo...

- Não, eu preciso ir sem acompanhante. Minha amiga quer ver minha pessoa e mais ninguém.

- Isso me deixa preocupado. Você está me escondendo algo filha?

- Quando eu chegar da viagem o senhor saberá. Não posso demorar mais um minuto.

O rei observava a jovem se afastar, estranhando suas atitudes e esperando que não esteja aprontando alguma coisa ruim. Já estava cheio de preocupações com o reino e uma a mais lhe traria muita dor de cabeça. Rita se cobriu com um manto escuro e um capuz para ocultar sua identidade debaixo disto e poder sair pelas vilas com maior segurança.

A caminhada seria longa, a vila do norte não ficava muito próxima e corria o risco de ser roubada ou perseguida no caminho. Com base nos mapas que havia observado seguia as estradas sem temer sua direção. Seus olhos estavam focados no horizonte e pouco notava quem a rodeava, só conseguiu mudar de visão quando se assustou com uma criança lhe puxando o vestido. Aqueles olhares vazios e tristonhos revelavam fome e solidão. 

- O que você quer?

- Hunf... me de comida.

Rita franziu a testa preocupada e percebeu que aquele ser não era o único que passava por aquilo, haviam pessoas ali que andavam com seus pés descalços e cabeças baixas, entre casas em ruinas e sujas de pó. 

- Tenho uma maçã.. você quer?

- Uhun

Ela a entregou em suas mãozinhas pequenas e a viu correr para longe. Aquela dor a fez refletir, que deveria agir o mais rápido possível, encontrar logo o tesouro e enriquecer novamente o reino para levar melhor condições de vida para estas pessoas. Foi um impulso para começar a caminhar mais rápido sem parar um minuto na estrada, mesmo que suas pernas se cansem.

A vila do norte habitava a maior parte da população do reino, pois muitos ali viviam da agricultura e era a base principal de renda que possuíam. Comerciantes de varias regiões se encontravam ali para trocar suas mercadorias e levar para o exterior. Rita sentia o cansaço nos pés mas ainda não parava de andar enquanto não encontrasse o jovem Aider. Tinha em mente sua aparência, moreno e bastante alto, mas era quase impossível encontra-lo quando se vive em um lugar onde a maioria das pessoas possuem da mesma fisionomia.

A princesa se aproximou de uma taberna para encontrar alguém que conheça o rapaz e perguntar de sua existência na vila. Haviam senhores idosos bebendo vinho em um canto e uma mulher limpando o balcão sujo com um pano úmido.

- Boa tarde... A senhora poderia me dizer onde encontro Aider? Um rapaz que mora por aqui...

- Aider? Por que procura por ele?

- Você o conhece então? Eu... preciso muito falar com ele.

- Ora ora, imagino que aprontou mais uma. Eu não sei onde ele está morando agora e nem quero saber. É bom que nem apareça mesmo.




02 novembro 2020

As sete chaves do baú - Capitulo 1

 O jardim era grande e esbanjava das melhores flores já vistas, com arbustos não muito altos e um muro que impedia a entrada de pessoas não convidadas. Mistery se aproximou do poço que estava ao centro do local e esticou sua mão adentro para pegar algo. Rita estava confusa, inquieta e ainda se perguntava porque um fantasma decidira aparecer justo naquele dia para dar esta missão estranha.

- O que esta fazendo?

- Procurando esta chave...

Ele a mostrou sorrindo, embora não fosse possível ver aquele rosto abaixo do capuz. O objeto em suas mãos era dourado e cintilava muito com a luz do sol.

- Eu disse que precisaria encontrar sete chaves para abrir o baú, mas acabo por lhe ajudar na primeira, então seja paciente na busca e vá ate o final. Prometo que não se arrependerá de ir atrás do ouro, porque sabe que precisa dele para salvar o reino.

- Sim... Mas você não me disse por onde e quando eu começo. Me falou que um tal de Aider vai me ajudar com isto mas não faço a menor ideia de onde posso encontra-lo.

O homem suspirou irritado e entregou a chave para a princesa.

- Parece que você não presta muito atenção nas coisas, não sei como o rei pode querer alguém assim ao seu lado para governar. Eu lhe informei que deverá ir para a vila do norte e procurar o rapaz, agora preciso ir... tenho outras coisas para fazer.

- O que...

Rita se assustou ao vê-lo desaparecer como uma nuvem, olhava para os lados buscando algum rasto de seus passos, mas era impossível já que ele não andava e sequer pisava no chão. Retornou ao seu quarto para guardar a chave no armário e correu ao escritório de seu pai para avisar sobre o que lhe ocorreu.

O rei estava lendo cartas, inúmeras, escritas e enviadas de vários cantos da região com pedidos de pagamentos de dividas e declarações de impostos. Seus olhos cansados e ombros exaustos de tanto trabalho duro feito ultimamente, sua filha o observava com pena e não queria deixa-lo ansioso na promessa de que traria o baú de ouro porque temia em não conseguir cumprir.

- Está tudo bem minha filha?

- Sim pai... eu... só queria lhe avisar sobre uma viagem que farei amanhã. 

- Uma viagem? Pra onde?

- Para... visitar uma amiga doente. Ela está beirando a morte... e... precisa muito da minha ajuda.

- Tudo bem então, mas não demore muito tempo para voltar, eu também preciso de você aqui.

- Sim pai... Mas, o senhor tem alguma novidade sobre o nosso fundo monetário?

- Não filha, nenhuma ainda...

Rita assentiu com a cabeça e saiu da sala o deixando em paz. Percebeu que as coisas estavam ficando muito difíceis a cada dia, não podia demorar mais para fazer algo e agora estava motivada de verdade a procurar aquelas chaves. Passou a noite toda organizando seus petrechos para levar nesta missão e procurando mapas que ajudariam a encontrar a vila do norte e caminhos mais fáceis de chegar ate lá.

31 outubro 2020

As sete chaves do baú - Prólogo

 O reino de Tudez é um reino fictício localizado no sul do continente europeu, isso influenciaria o fato do clima ser menos frio na maior parte do ano. Mesmo com todas as suas posses e um histórico rico de conquistas sua economia entrava em declínio e estava próximo de falir.

Os minérios que dificilmente estavam sendo encontrados em suas terras não eram o suficiente para manter todo o reino sustentado, até seu exército que era um dos mais fortes da região hoje não sobrevivem mais ás guerras. 
O rei já era um homem infeliz desde o falecimento de sua esposa, que lhe deixou apenas uma filha como lembrança de uma vida amorosa, a jovem Rita que se tornou uma princesa super protetora ao pai e responsável por uma grande parte do reino.

Numa manhã ensolarada com algumas nuvens espalhadas pelo céu, Rita sozinha em seu grande quarto penteava seus cabelos, com longas curvas e uma belíssima cor de areia escura. Sua vaidade era admirável e conseguia se tornar a mulher mais bela da região, e enquanto olhava para o espelho refletia em silencio as causas que traziam tanto sofrimento para aquele reino em ruinas.

- Bom dia alteza...

Uma voz estranha ecoou pelo local assustando a princesa que se levantou de uma cadeira para observar quem era, mas pelo espelho em sua frente não era possível ver o espectro da pessoa. Sentiu um frio na barriga e olhou para todos os lados, estava sozinha e pensava estar louca por escutar vozes.

- Tem alguém aqui?

Respirou fundo esperando ouvir alguma resposta e caminhou pelo quarto pensativa. A porta do quarto estava aberta e havia alguém chegando devagar; um ser alto de capuz preto e braços longos, não tocava os pés no chão, uma assombração cabulosa a luz do dia. Rita estremeceu pálida e temia em gritar, tentava se afastar dos passos daquele fantasma que se aproximava cada vez mais.

- Me desculpe entrar sem pedir permissão, alteza...  Me chame de Mistery. Precisava falar com a senhorita sobre algo muito importante.

- O-o que... de onde vo-você veio?

- Isso não importa. 

- O que você quer ? Quem te deixou entrar?

A criatura sobrenatural estava impaciente, não queria perder o tempo com aquelas perguntas e fez um gesto de silencio com a mão pedindo que a princesa se cale.

- Me ouça princesa, existe um baú escondido em algum lugar distante daqui e ele está cheio de moedas de ouro o suficiente para recuperar todo o seu reino. 

- Como assim? Quem te trouxe aqui para me falar isso? É alguma brincadeira comigo?

- Não! É uma missão séria e arriscada, eu fui informado sobre o que está se passando por aqui e decidi ajudar.

- Ajudar? Assim tão fácil? Eu nem o conheço e tampouco sei se é amigo de meu pai. Ninguém aparece do nada para ajudar alguém sem pedir nada em troca.

- Sim você tem razão, e tenho algo sim para pedir. Mas não direi enquanto não realizar a missão, e quero que siga todas as instruções que eu disser. 

Rita assentiu com a cabeça aceitando aquela proposta perigosa, sua curiosidade era grande e sabia que precisava mesmo dessas moedas de ouro para ajudar o pai com as economias do reino. Mistery fez um gesto a chamando para fora do quarto e seguir caminho pelo corredor. Ele podia vagar invisível aos olhos de todos, exceto a princesa que era a única que podia vê-lo, que estava bastante confusa e não sabia das consequências de confiar em uma assombração. Ela respirava fundo, nervosa caminhando com passos curtos pelo castelo saindo de um andar e indo em direção ao jardim do palácio.

26 outubro 2020

É mais que amiga - Último capítulo

 Carol comia um alface sem tempero, suas amigas estavam sentadas em uma mesa distante apenas a observando com pena, faziam dois dias desde que elas começaram a se afastar dela. A garota virou uma piada entre os colegas e tinha deixado de arrumar o cabelo como era acostumada.

Miguel bebia um Toddynho no canto do refeitório sentindo um peso enorme na consciência, muitos riam até, o fato de ter perdido uma menina linda para uma jogada idiota com uma garota sem noção. 

Ana estava lá pegando o segundo prato no balcão, seu cabelo parecia mais sedoso e sua roupa mais ajustada. Alguma coisa mudou drasticamente nela, não foram os julgamentos e zombação alheia que a fizeram cair, ela se ergueu porque estava mais feliz do que nunca. 
Sentou sobre uma das mesas vazias e sorriu para sua companheira do lado. Míriam beijou sua bochecha e voltou a comer do lanche que pegou.
- Daqui a pouco vou ter aula de Geografia, mas não consegui terminar o trabalho que o professor passou semana passada.
- Se quiser posso te ajudar agora antes do intervalo acabar?
- Não precisa, não vai dar tempo. Acho que vou reprovar na matéria.
- Eu não vou deixar uma coisa dessas acontecer! Não é porque não conseguiu antes que não vai fazer agora.

Ana se levantou e a chamou para acompanhar até sua sala, Carol as observava de longe se perguntando do porque escolheram isso. Por que Ana seria diferente dela e não namoraria o garoto que mais gostou na escola? Por que Míriam é tão amiga dela que a desejou mais que isso?
A mesma se levantou em seguida para segui-las à distância, as duas estavam sentadas em duas mesas da sala para escrever o que faltava do trabalho de Geografia. Carol se aproximou da porta para observar, talvez desejasse aprontar uma última coisa com elas.

Míriam suspirou fundo encarando uma página do livro, estava um pouco difícil falar sobre o atrito de placas tectônicas. Ao perceber que estavam sendo vigiadas por alguém olhou em direção à porta e viu Carol se escondendo do outro lado.
- O que você quer aqui?
- Nada... Só estava observando.
- Sei, você anda muito estranha ultimamente. 
- Não estou estranha. Vocês que são estranhas.

Carol saiu de lá as deixando sozinhas, Ana sabia que algo estava acontecendo com a garota e não era apenas sobre o que passavam dentro da escola. Começou a questionar se houvesse crises lhe acontecendo. Ao final da aula Ana comentou com Míriam sobre isso e decidiram passar na casa de Carol para conhecer o lugar, elas nunca foram lá e nem imaginavam como era a casa. 
Se aproximaram do quintal e ficaram perplexas com a imagem que viam, o lugar era sujo e mal cuidado e a fachada da residência estava em ruinas. Míriam olhava de baixo para cima estranhando aquela situação.
- Tem certeza de que aqui é a casa dela? 
- Sim... É nesta localização. 
- Carol não viveria em um lugar desses nem em um universo paralelo.
- Pois é... Mas vamos ver primeiro para ter certeza.

Ana bateu na porta da casa e esperou alguns minutos para alguém abrir a porta. Um homem barbudo e barrigudo esquisito as receberam com um olhar serio e desprezível, parecia que não estava nem um pouco gostando da presença delas.
- Quem são vocês e o que fazem aqui?
- A Carol mora aqui?
- Sim, vocês são colegas dela? O que aconteceu com ela? Onde ela está?
- É o que queremos saber. O senhor é pai dela?
- Padrasto, querem alguma coisa aqui?
- Não, podemos voltar mais tarde...

Se afastaram da casa entreolhando uma a outra, pensavam a mesma coisa e tinham uma ideia em mente. Quando encontraram Carol na calçada caminhando em direção a sua casa notaram que estava cabisbaixa e parecia triste com algo. Míriam a parou pegando em seu braço deixando a garota assustada e irritada.
- Ei me solta sua louca! 
- Primeiro me fala, o que houve com você?
- Que? Como assim? Eu quem pergunto o que houve com vocês.
- Vimos que você tem um padrasto e sua casa é horrível. Nos diga sinceramente... Você já... foi tocada por ele?

Carol estremeceu e desprendeu seu braço das mãos de Míriam. Ana notou sua inquietação, de fato tinha algo errado com ela e não queria dizer á ninguém.
- Vocês... não deveriam tomar conta da vida dos outros.
- Embora não acredite, nos importamos com você.
- Por que? Nunca fui boa com vocês...
- Diga Carol, você foi ou não tocada por ele?

Ela não precisava responder, seus olhos começaram a lacrimejar e suas mãos tremerem. Era um medo notável, estava desejando correr das garotas e se esconder em algum lugar distante para não mostrar esse lado covarde dela. Queria parecer valente, melhor e mais forte que elas, mas sua mascara já estava caindo e revelava uma menina indefesa precisando de ajuda. Ana olhou em seus olhos úmidos e a abraçou sem hesitar antes que Carol pudesse impedir.
- Está tudo bem, não se preocupe vamos fazer alguma coisa para se livrar daquele homem. Se quiser pode ficar um pouco na minha casa hoje, minha mãe não vai se importar.
- Ma-as... porque... porque querem me ajudar?
- Porque estamos te dando uma nova chance. Nunca a odiamos, você é como nós, ninguém é melhor que ninguém neste mundo.
- Obrigada... e.. me desculpa...

...

07 outubro 2020

É mais que amiga - Capítulo Vinte e quatro

 Ana temia em concordar, mas isso a tornaria uma covarde. Mentir para si mesma não lhe traria felicidade alguma. 

- Sim... eu acho que quero ficar com você.
- Acha?
- Eu não sei... você é minha amiga, única até. Nunca fui desejada por alguém assim, ninguém gostou de mim como você gosta.

Míriam sorriu de lado e abraçou Ana a deixando corada mais uma vez, parece que ainda não se acostumou com as manifestações de carinho dela.
- Você já quer voltar para casa?
- Não... não sei. Acho que podemos ficar mais um pouco.
- Hum, e que tal dar uma passada na minha casa antes de você ir?
- Na s-sua casa?
- Sim...

Ana assentiu pensativa e caminhou com a amiga pela praça dando algumas últimas voltas. Sem nada de muito interessante para fazer ali, seguiram rumo à casa de Míriam, eram 21:00 horas. Ao entrarem viram um silêncio saudoso percorrer pela casa, a avó de Míriam já estaria dormindo agora e seu irmão provavelmente no mesmo.
- Ainda não te mostrei meu quarto, mas você já havia me mostrado o seu.
- Verdade. Imagino que o seu seja mais organizado.
- Não, não é rsrs.

Ana a seguia pelo corredor e se aproximaram da porta para abri-la. Míriam lhe apresentou aquele cômodo escuro, as paredes pintadas de roxo e uma cama bagunçada no canto.
- Aqui é meu lugar de refúgio. Onde posso me afastar das pessoas e viver meus sonhos.
- Seus sonhos? Quais são eles?
- Fecha os olhos e veja.

A garota ficou curiosa e ao mesmo tempo com um certo pressentimento. _O que seria esse sonho? Por que tenho que fechar os olhos para ver? O que Míriam está querendo fazer?_
- Você sente medo de mim?
- N-não... É que... não sei o que quero ainda.
- Melhor te levar de volta para casa então, antes que sua mãe venha te procurar.

Ana abriu os olhos e viu estranhamente que a amiga estava ajeitando a camisa. Suspirou fundo e cerrou os punhos nervosa.
- Ela pode esperar um pouco. Eu não quero ir agora.
- Mas... sério?
- S-sim.
- Por que você muda de ideia tão de repente?

Míriam riu e fechou a porta do quarto observando Ana trêmula, suas bochechas pareciam pimentões de tão vermelhas.
- Míriam tem uma coisa que... eu preciso dizer...
- Diga.
- Eu... eu... eu te amo.

Aquela frase fez em seu rosto surgir um sorriso largo, seu coração estava mais pulsante agora e seguro de seus sentimentos. Ana se aproximou de Míriam olhando para ela não mais como apenas aquela amiga que conheceu meses atrás, mas como uma garota como ela que ainda estava tentando descobrir o mundo à sua volta.
Nada do que ouviram falar sobre esses preconceitos caluniosos faziam importância agora, tudo o que valia era o amor, era ele o importante de tudo.

Míriam levava suas mãos ao rosto de Ana lhe acariciando suavemente e aproximavam os rostos para um beijo intenso e sem pressa. Mesmo que a noite seja curta para elas, deveriam aproveitar ao mínimo um último minuto. Até sentirem que as mãos alheias tocassem suas costas e levantassem o tecido da roupa para finalmente serem removidos de seus corpos.

23 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Vinte e três

 Míriam não retirava seu olhar da amiga, estava tão fisurada naquele beijo ocorrido que sentia como se desejasse mais um. Caminharam pela praça tomando um sorvete sem muito sobre o que conversar, observavam os carros passando e alguns conhecidos passeando pelas ruas.

- Eu contei para minha mãe...

- Contou o quê?

- Sobre você gostar de mim.


Míriam ficou preocupada com o que acabara de ouvir, as duas sentaram em um banco para prosseguir o assunto. Ana percebeu que a notícia não havia deixado a amiga feliz e suspirou fundo olhando para o chão.

- Eu sei que não devia, até porque minha mãe não teve das melhores reações.

- O que ela disse?

- Para eu me afastar de você.

- Por que você contou à ela? Isso só a deixou ainda mais contestada com nossa amizade.

- É que pensei que... ela me ajudaria...

- Te ajudar com o quê?

- Eu fiquei muito confusa quando você revelou que estava gostando de mim, precisava de um conselho da minha mãe.


Míriam fechou os olhos por um instante, assentindo pela situação. Ela nunca teve uma mãe presente, reconhece que sua amiga não estava nem um pouco errada, mas possuía ainda um grande medo em perde-la.

- Eu fico feliz por saber que sua mãe ao menos se importa com você...

- E a sua? Você nunca me apresentou seus pais.

- É difícil, meu pai deixou minha mãe grávida solteira e ela viajou para o exterior em busca de emprego. Então passei a morar com minha avó e meu irmão de consideração.

- Consideração?

- Sim. Minha avó praticamente o adotou. Era filho de uma conhecida que já morreu.

- Mas isso não o faria ser como um tio?

- Não, minha avó agora é minha mãe, então pela lógica o garoto é meu irmão.

- Entendo... eu não imaginava que tivesse uma história tão confusa assim...

- Pois é...


Ficou um silêncio apavorante por alguns minutos, não das coisas que estavam acontecendo ao redor, mas entre elas. Ana notou uma coisa no rosto de Míriam que nunca havia percebido antes, então levou sua mão ao queixo da jovem e suspirou sorrindo.

- Eu não sabia que tinha isso.

- Isso o quê?

- Um queixo tão lindo.


Míriam franziu a testa confusa porque do nada Ana havia falado aquilo. Poderia ser espantoso como sua amiga a elogiou carinhosamente depois de tanto fugir deste amor que estava tentando manter com ela, mas dava para notar que os olhos de Ana brilhavam e diziam que alguma coisa mudou em seu coração.

- V-ocê acha meu queixo lindo?

- Sim. E o meu? É lindo também?

- Sim, Claro! É muito lindo.


As duas riram juntas e se entreolharam tocando as mãos. Os dedos se fechavam entre eles e suas peles ficaram arrepiadas com aquela sensação emocionante que sentiam dentro delas. Ana estava corada, suas bochechas pareciam dois tomates e ficaram ainda mais vermelhas depois que Míriam se levantou para dizer algo;

- Vamos para um lugar mais... afastado?

- Afastado? Onde?

- Não sei, talvez... uma rua menos iluminada ou algum canto da praça sem movimento.

- S-sim... pode ser. 


Ana acompanhou a amiga até um beco onde não havia ninguém e encarou a garota confusa. _O que será que ela quer? O que faremos aqui? Acho que eu deveria voltar para casa..._

- Está tudo bem Ana?

- Sim... estou, porquê?

- Você parece preocupada.

- Não seria melhor voltarmos para a praça?

- Mas é que as pessoas por lá não se sentiriam bem com a nossa presença...

- Como assim?

- Você me entende Ana, o preconceito... É dele que estamos fugindo.


Míriam abraçou forte a amiga e algo escorreu por seu rosto, era úmido e havia pingado sobre a camisa de Ana. 

- Está chorando?

- Foi... só um cisco no olho.

- Não fique assim. Sabe que eu não vou te abandonar né? Você está sendo mais do que uma amiga para mim.

- Eu sei... que você pode estar sentindo por mim o mesmo que sinto por você, mas não é disso que me preocupo. Sua família, não deve se afastar dela... Mesmo que eles não compreendem suas escolhas.

- Posso até não me afastar dela, mas não serei obrigada a concordar com tudo o que eles dizem. Afinal, cada um faz suas escolhas e vive como deseja.

- Então está querendo dizer que... Isso significa que quer mesmo... ficar comigo?




11 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Vinte e dois

Ana voltou para casa e tentou falar com sua mãe e implorar que a deixasse sair com sua amiga para passear na praça. A mulher estava confusa com aquilo, sua filha nunca gostou muito de andar com amigos de noite em passeios, talvez porque nunca tivesse um amigo verdade mas agora que sabia que estava se enturmando com uma garota que poderia facilmente leva-la para um "caminho diferente" ficou preocupada.

- Por que deseja tanto sair com essa garota? 

- Ela é minha amiga.

- Mas você mesma me disse que ela quer outra coisa com você.

Ana suspirou fundo e revirou os olhos. Se de fato estivessem afim de ter alguma coisa uma com a outra mesmo assim não seria problema algum, mas sua mãe era tão rígida que isso poderia facilmente iniciar uma discussão séria.

- Mãe eu já tenho 16 anos, preciso aprender a seguir meus caminhos sozinhas. Haja o que houver a senhora precisa saber que eu e Míriam não vamos acabar com nossa amizade.

- Você ainda é uma adolescente! Acabou de sair das fraldas. Não quero ver filha minha se envolvendo com coisa errada e acabar virando piada na cidade.

- E quem disse que amar é errado?

Aquelas palavras que lhe escapou pela boca havia a deixado tão surpresa quanto sua mãe. Parece que acabou de admitir o que sentia pela amiga, mas não era muita novidade para si mesma, apenas preferia não ter dito à ninguém.

- Eu vou nem que seja fugindo!

- Vai mesmo me desobedecer? Se seu pai souber...

- Ele não é como a senhora e provavelmente vai me entender. Agora me deixe tomar um banho!

A garota saiu furiosa andando pela casa indo em direção ao banheiro. Enquanto se arrumava para o passeio Míriam estava tentando escolher uma roupa bem diferente para sair com ela, talvez com algo mais fofo ou meigo faria Ana se sentir mais confortável ao seu lado.

Ela dará o possível para que aquela noite se torne melhor que os dias anteriores e seja uma das mais inesquecíveis de sua vida.

Ao chegar às 20:00 h, Ana tentou mais uma vez ganhar a confiança de sua mãe. Ainda estava sendo difícil e impossível então sua única ajuda seria do pai, que acabava de sair do banho e foi interrogado pela filha antes de cruzar o corredor para o quarto.

- Está tudo bem minha pequena?

- Não pai, minha mãe não quer deixar eu passear com minha amiga só porque será hoje à noite no parque.

- Mas porque ela não quer deixar?

- Por que é minha primeira vez saindo com alguém, eu teria meu primeiro passeio com uma amiga...

O homem olhava para a filha com pena e sorriu para ela seguindo em direção ao quarto para vestir a roupa. Ana ficou triste por não receber nenhuma resposta do pai e caminhou até a sala para sentar no sofá com uma cara de cão doente. 

Ficou assistindo TV por alguns minutos, sem nada interessante para fazer e esperando que sua mãe acabasse mudando de ideia.

- Filha?

- Pai?

O homem se aproximou dela com a chave do carro na mão e a chamou para levantar do sofá.

- Vou te levar se quiser. 

- Mas e a mamãe?

- Depois converso com ela, vamos? 

- Sim!

Ana entrou no carro sorrindo e ajeitou o cinto de segurança. Estava animada para ver Míriam e poder comprar alguns sorvetes na praça. Não demorou muito até chegar na casa dela e bater na porta a chamando.

A garota estranhou quando viu a amiga chegando de carro, abriu a porta imediatamente e ficou feliz por saber que poderiam fazer o passeio naquela noite.

- Está pronta?

- Sim estou... O que achou da minha blusa branca?

- Prefiro quando veste aquelas escuras, é mais sua cara.

As duas riram e saíram para fazer a longa caminhada de ida à praça, não ficava tão longe assim mas o trânsito não ajudava muito.



10 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Vinte e um

Carol sentia um gosto meio amargo na boca, estava ferida mas não queria parar até conseguir machucar sua inimiga. Ana estava preocupada ao ver Míriam se arriscando, mesmo que esteja sendo impressionante como ela se mostrava mais forte que a outra.

- O que está acontecendo aqui?

Todos ficaram em silêncio quando uma mulher alta se aproximou os encarando furiosa. Míriam se afastou de Carol deitada no chão e respirou fundo olhando para a diretora.
- Me desculpe...
- Você agrediu sua colega!
- Ela não é minha colega...
- Quero as duas na minha sala agora!

Paula ajudou a amiga a se levantar do chão, estando com um hematoma no rosto. Sua respiração estava ofegante e abaixou a cabeça sem desejar visualizar os olhares dos demais estudantes ao redor.
- Ela queria acabar comigo diretora. A senhora devia dar uma suspensão para ela.
- Venham comigo! Agora!

Míriam acenou com a cabeça e foi ao lado da outra caminhando até a sala onde jamais queriam estar. Ana viu seus colegas entrarem na sala para iniciar a aula mas continuou parada no corredor, processando aquela briga que assistiu minutos atrás. Nunca imaginou que sua amiga fosse capaz daquilo e tivesse uma força brutal mas mãos, mas uma parte dela estava feliz, porque finalmente pôde ver Carol ser apunhalada em sua frente.

Após a aula acabar Ana procurou por Míriam pela escola, não tinha notícias do que foi feito com as duas, precisava voltar logo para casa e ligar para a amiga. Seu pai não demorou muito para chegar, no caminho ela retirou o celular da mochila e enviou uma mensagem para Míriam:

Como você está? A diretora te deu suspensão?

A garota não estava online e isso a preocupava. Após o almoço saiu novamente com seu cachorrinho como pretexto para ve-la, talvez sua mãe ficaria desconfiada se dissesse que iria até a amiga depois daquilo que havia contado à ela.
Andou alguns quarteirões até achar a casa de Míriam e se aproximou da janela da sala para verificar se ela estava lá. Parece que a menina ajudava a avó limpando o chão da casa, não queria interromper ou atrapalhar, mas precisava conversar com ela.

Bateu devagar na porta e esperou alguém abrir. Míriam suspirou fundo ao vê-la e caminhou até Ana surpresa com sua vinda.
- O que faz aqui?
- Ue eu vim ver se estava tudo bem com você. Não esteve online durante as últimas horas... A diretora te deu suspensão?
- Sim, de quatro dias.
- E quanto à Carol?
- A mesma coisa também.

Ana compreendeu o fato e ainda segurando a coleira de Fuxico olhava para a amiga em sua frente.
- Você não precisava ter feito aquilo.
- Só quis te proteger... Mas tem razão, eu não deveria ter feito isso. Não vou receber nada em troca...
- N-ão foi isso que eu quis dizer, eu... fico muito muito grata por sua coragem de enfrenta-la. Me impressionei com seus golpes. Já praticou alguma aula de karatê?

Míriam riu negando e suspirou fundo olhando para trás, se afastou da porta levando a amiga para um canto mais afastado no quintal e abaixou a cabeça para responder.
- Eu vim de uma escola onde os meninos gostam de fazer gracinha com as garotas. Eu não era nem um pouco piedosa com eles, aprendi a me defender e dava altas porradas em todo mundo.
- Nem parece que você é do tipo que adora uma briga.
- Você acha que não? Eu já tive vários apelidos estranhos por causa disso.
- Me diga um deles.
- Não, melhor não.

As duas riram juntas e ficaram se olhando por um tempo. A avó de Míriam a chamou para terminar de organizar a casa, a garota gritou pedindo para ela esperar e voltou sua atenção para Ana desejando falar uma última coisas antes dela ir.
- Você vai estar ocupada esta noite?
- Não porquê?
- Que tal um passeio pelo parque?
- De noite? Não é perigoso?
- Não precisa ficar preocupada com isto, já disse que sou capaz de bater em qualquer um então isso não será nenhum problema.

Ana assentiu sorrindo e foi caminhando lentamente se afastando da residência.
- Vou ver com minha mãe, se pudermos... Às 20 horas seria melhor.
- Ok. Às 20 horas! estarei te esperando aqui para irmos.
- Está bem.

09 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo vinte

 Fuxico latiu à aproximação de pessoas fazendo com que as duas garotas se afastassem assustadas e preocupadas com os olhares de estranhos. Míriam viu um casal de adultos passar desejando que eles não tivessem visto nada, isso não importava muito desde que julgamentos não sejam ditos.

Ana abaixou a cabeça um pouco envergonhada, não imaginava que algum dia isso aconteceria em sua vida, que sentiria ser beijada por uma pessoa como ela... uma outra garota.

- Está tudo bem?


Míriam se aproximou novamente observando aquele rosto caído de bochechas vermelhas.

- S-sim... A gente não deveria...

- Por que não? Não estamos fazendo nada de errado. Não somos ladras, assassinas ou coisa do tipo, apenas nos beijamos.

- É que... se meus pais descobrirem... 

- O que eles farão?

- Eu não sei...


Ana se levantou do banco pegando na coleira do cachorro para sair da praça, tentou se afastar o bastante mas Míriam lhe puxou pelo braço para impedi-la.

- Espere! Mesmo depois disso você ainda está tentando me evitar? 

- Você está confundido amizade com outra coisa! Eu não deveria ter aceitado o que fez comigo.

- Eu não estava te segurando, você poderia ter fugido naquela hora!


Ana não sabia o que estava sentindo, se gostava daquilo ou tentava esquecer, o que na verdade era impossível porque além se der seu primeiro beijo ainda foi maravilhoso. Soltou seu braço da mão de Míriam e correu com seu animalzinho para fora da praça, o que deixou a amiga desapontada e mais pior do que esteve horas atrás.


Ao chegar em casa Ana tentou não contar nada ao seus pais, infelizmente não tinham capacidade para compreender... Ela passou aquele resto do dia com a cena em sua cabeça, até o momento em que foi deitar para dormir, tão confusa de querer aceitar que tenha gostado de uma coisa que nunca tinha sido sua motivação.

No dia seguinte não poderia faltar à aula, mas ficava imaginando como Carol havia sobrevivido hoje sem sua presença, já que Ana embora seja alguém que menos goste não teria outra pessoa para provocar naquela escola. 


Meia hora antes do sinal tocar Míriam encarou Ana que passava pelo corredor entre as salas, seu coração estava um pouco apertado mas sua memória feliz por imaginar um desejo que se realizou por alguns instantes do dia passado.

Ana abaixou o olhar para continuar a seguir em frente e entrar na sala, mas pisou em alguma coisa no caminho e acabou tropeçando e caindo no chão.


Carol sorriu após retirar seu pé do local e fez os demais alunos ao seu redor rirem demasiado. Míriam não ficou parada ao ver cena, se aproximou de Ana para ajudar a levanta-la.

- Não pre-cisa... 

- Você se machucou?

- Não... só... bati um pouco...


Míriam caminhou até Carol olhando em seus olhos de peste de urubu e bufou de ódio cerrando os punhos.

- Faz de novo faz. Você não sabe do que sou capaz...

- Não tenho medo de uma emo horrosa! Principalmente quando é lésbica apaixonada pela amiguinha sonsa.


Ana as observaram tensa, sabia que isso não ia acabar bem e que estavam sendo expostas ao ridículo. Daniley percebeu que Míriam estava chamado a amiga para uma briga e se aproximou de seu ouvido para sussurrar:

- Melhor não se atrever... pode acabar dando ruim para você Carol.

- Cala a boca, eu vou arregaçar essa idiota e não quero ninguém atrapalhando.

- Mas...


Míriam a puxou pela camisa com uma fúria nos olhos a ponto de querer lhe socar naquele momento.

- Nunca mais mecha com Ana! Você não é digna de atenção alguma.

- Não toque em mim! Você está pedindo para ser esmurrada!


Carol a empurrou até uma parede e se aproximou para dar um forte tapa em seu rosto, a outra lhe segurou pela mão e girou seu braço tentando paralisa-la. Ana tremia em um canto enquanto assistia a briga e a turma toda gritava por aquilo em voz alta:

- Briga! Briga! Briga! Briga!


Míriam lhe acertou com um chute na perna esquerda e deu um forte soco no cotovelo.

- Posso levar suspensão mas não te deixarei ilesa!

- Sua idiota! Vai se arrepender de ter me puxado a camisa!


Os gritos ecoavam pelo corredor até chegar no escritório da diretora. Ela estranhou o barulho e se levantou da cadeira para ver o que estava acontecendo.

08 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Dezenove

 Ana não conseguia parar de encarar Carol durante a última aula, sua inimiga parecia satisfeita com o que tinha feito, mas não sabia que isso não importava mais nada para ela. Ana ainda podia estar triste com o ocorrido mas não precisava mais se preocupar em cair nas sacanagens de uma menina tão infantil.


Ao encerrar a aula voltou para casa sem muito ânimo e sentou sobre a cama para refletir sobre aquele dia. Estava tão confusa que nem almoçou direito, sua mãe preocupou com a aparência desgastada da filha e tentou tirar uma resposta dela na hora jantar.

- O que aconteceu com você?

- Não quero falar...

- Seu pai vai voltar daqui a pouco então se quiser contar só para mim precisa dizer antes...


Ana suspirou fundo trêmula e levantou os olhos para a mãe do outro lado da mesa.

- Míriam gosta de mim, mas eu não sei o que fazer.

- Su... sua amiga gosta de você? 

- Sim mãe, mais do que como uma amiga. Isso é errado?


A mulher negou com a cabeça mas ao mesmo tempo parecia querer demonstrar o contrário. Ela não imaginava ouvir isso de sua filha, mas pensava que poderia ser um alívio não ser ela quem gosta da amiga.

- Você tem certeza disso? Ela... te disse isso?

- Sim mãe. Eu não queria deixar de ser amiga dela, mas eu não sei como fazer para não te-la distante de mim... Eu não sei se quero sentir por ela o mesmo.

- Minha filha... Eu não sei o que dizer, não que eu esteja sendo preconceituosa mas...

- Mas?

- Você sempre gostou de meninos né? Você não precisa tentar gostar de algo se não é o que deseja. Só quero ver minha filha feliz e se uma amizade te deixa assim tão dividida é melhor que encontre uma nova amiga.


Ana encarou o prato pensando naquelas palavras e se levantou da cadeira para sair da cozinha. A noite passou igual como sempre, dormir pouco fazia mal para ela. Com Míriam também não era diferente, algumas vezes chegava à dormir no sofá da sala enquanto assistia TV em algum canal aleatório.

Na manhã seguinte nenhuma das duas quis ir à escola, Carol se sentiu feliz com isto como se lhe tirassem uma pedra do sapato. A mãe de Ana faltou pouco para bater nela, não desejava ver a filha perdendo um dia de aula por uma bobeira qualquer.


Ana passeou com seu cachorrinho pela praça perto de sua casa, havia um jardim pouco cuidado e os bancos eram velhos e sujos. Podiam dizer que o lugar era abandonado, mas na verdade ficava bastante movimentado de tarde e as pessoas não se importavam muito em zelar.

- O sol está quente né? Vou comprar um sorvete.


Caminhou até um carrinho de um senhor baixo e careca e sacou uma nota de dois Reais do bolso. 

- Quero um de baunilha com cobertura de chocolate.

- Está bem.


O homem preparou-lhe o sorvete e entregou sorridente. Ana sentou em um canto mais afastado para não ficar ouvindo o barulho das buzinas de carros que passavam próximos. Ao terminar de comer o sorvete deu a casquinha para Fuxico comer.

- Está dispensando a melhor parte?

- Que?


Ana escutou a voz de Míriam atrás do banco e virou o rosto para vê-la. A garota tinha olheiras debaixo dos olhos e vestia uma camisa larga preta.

- A casquinha do sorvete para mim é a parte mais gostosa.

- Se quiser posso comprar um para você também.

- Não precisa, quero outra coisa.


Ana fraziu a testa e Míriam sentou ao seu lado acariciando a cabeça do animalzinho.

- Está tudo bem com você? 

- Mais ou menos... Eu não dormi bem.

- Nem eu, como pode ver estou horrível hoje.


Ela riu olhando para a amiga e ficou analisando sua aparência também, que diferente dela estava com um batom rosa nos lábios e usava uma blusa amarela clara.

- Ainda somos amigas né?

- Pensei que... Queria outra coisa...

- Tipo o quê?


Ana imaginou que sua amiga estivesse se fazendo de boba agora, é claro que Míriam não mudaria de ideia de uma hora para outra.

- Esquece, acho que é melhor.

- Melhor? Tem certeza?


Míriam levou sua mão ao rosto de Ana acariciando suavemente, aquilo estava a deixando trêmula e tímida de continuar a encarar a garota. Suspirou fundo aproximando seu corpo dela sentindo as batidas do coração acelerar.

- Você ainda pode fugir se quiser, mas eu desejo que sinta antes de recusar uma próxima vez.

- An?


Ana percebeu seus lábios tocarem aos de Míriam e a viu fechando os olhos. É como se quisesse impedir que aconteça, como se aquilo fosse proibido ou uma manipulação da qual não queria estar submissa. Não era capaz de se afastar agora e nem de fugir, só de dava conta de que podia fechar os olhos também e deixar aquilo prosseguir até onde conseguiria.

Míriam a puxou um pouco mais perto e continuou um beijo que esperava à meses. Sentir a respiração da outra a deixava mais feliz e tranquila de que aquilo tudo não estava sendo apenas um sonho.



07 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Dezoito

 Míriam entrou no banheiro alguns minutos antes da aula retornar e estranhou ao ouvir um choro detrás de uma das portas. Ela se aproximou devagar e encostou a orelha para poder falar com quem estaria ali e escutar melhor.

- Oi está tudo bem? 

Ana estremeceu ao reconhecer a voz da amiga e suspirou fundo temendo que a encontrasse daquele jeito.

- Ei... eu perguntei se está tudo bem e se quiser posso chamar a diretora.

- Não...

Míriam arregalou os olhos descobrindo quem era atrás da porta, não sabia que insistia mais ou ignorava a garota que não soube lhe corresponder como queria...

O sinal havia tocado, as duas estavam sozinhas no banheiro e Ana precisava encontrar algum escape de toda a situação, a outra garota ainda sentia que precisava fazer algo por ela abandonando seu ego naquele momento.

- Ana... Você pode abrir a porta? 

- Me deixe sozinha!

- O que elas fizeram com você? Anda, abre esta porta!

- Não vou!

Míriam suspirou fundo e ignorou a negação, abriu a porta lhe encarando séria e estendeu à mão para ela.

- Ainda somos amigas, não? Por que você está chorando se agora pode namorar o garoto que sempre sonhou?

- Ele está com a Carol... ele me enganou...

Ana tremia de raiva e não deixava que seus olhos voltassem a ficarem secos, seu rosto estava cada vez mais úmido.

- Ele te disse isso ou foi aquela sonsa? 

- Eu vi... os dois se... beijando... As meninas me confirmaram antes...

- Quê? Você os viram se beijando? Onde estavam?

- Numa sala, que prefiro não lembrar.

Míriam se afasta rindo com seu ódio tasparecido no olhar, se apoiou na pia do lavatório e observou do espelho a amiga caminhando até ela.

- Eu te avisei não foi? E você ainda preferiu escutar eles... 

- Me desculpe Míriam... Eu sou muito burra mesmo!

- Não, você não é! Eles te manipularam o tempo todo e por isso você ficou assim! Não deve fazer da sua vida aquilo que os outros pedem, o que eles dizem ser o melhor para você sendo que não é! Você não precisa de um garoto mimado, popular que se acha incrível por pegar várias garotas se você pode se apaixonar por uma pessoa totalmente melhor.

Ana ficou parada sem saber o que responder, suas mãos agarravam-lhe os braços e sua cabeça estava mirada ao chão.

- Eu gosto muito e você Míriam, nunca tive uma amiga assim que realmente se importasse comigo. Alguém que sentiria algo por mim além de amizade... isso é um pouco estranho na verdade, e muito novo para mim...

- Não se preocupe, tudo tem o seu tempo.

Míriam deu um breve sorriso e se aproximou da amiga para dar lhe um forte abraço. Aproveitou daquele momento para poder sentir melhor um gesto de carinho que à muito tempo não recebia de alguém, e amaria poder ter esta sensação por mais tempo.

- Te amo Ana...

A outra apenas acenou com a cabeça sem poder responder com a mesma frase, ainda estava confusa com aquilo e precisava se afastar logo para voltar à aula.

- O sinal já tocou faz tempo.

- Ah... verdade. Vamos então, tenho uma atividade para entregar hoje.


02 setembro 2020

É mais que amiga - Capítulo Dezessete

 Naquele longo intervalo as duas seguiam caminhos opostos pelo pátio do Colégio. Uma colega de Míriam até tentou conversar com ela para saber se estava tudo bem, mas não estava muito afim de responder.

Ana passou em frente à sala da direção e observou aquele sofá no canto, aquele mesmo local onde havia conhecido sua amiga... Ela não se sentiu muito bem em ficar mais alguns minutos parada ao lado dele, queria entender o que levou Míriam à sentir atração por ela, se para ela própria nunca se considerou atraente.


Carol e Miguel entraram numa sala vazia e fecharam a porta para uma conversa particular. A garota estava sorrindo mais do que o normal, talvez pensasse que sua ideias sem sentido estavam indo bem como queria.

- Qual é dessa vez? - o rapaz perguntou cruzando os braços.

- Você realmente gosta da Ana? Não acha que está perdendo tempo com aquela sem sal?

- Por que fala isso, se foi você mesma quem me empurrou para ela?

- Você sabe que isso foi apenas uma estratégia criativa, eu sei que às vezes se faz de bobo mas no fundo gosta de ser duro com os sentimentos das meninas.

- E o que quer dizer com isso?

- Que não precisa mais tentar algo com Ana, ela não nem te deu mole hoje cedo, algo aconteceu com aquelas duas... e tenha certeza de que suas chances com a garota não são mais as mesmas...


O cérebro de Miguel bugou naquele instante, ele estava tentando entender onde Carol queria chegar mas o que tinha de bonito tinha de lerdeza. Daniley e Paula estavam do lado de fora como planejado, elas avistaram Ana pelo corredor e a chamaram para aprontar.

- Ei! O que aconteceu com você hoje? Está tão caída... - Danilely perguntou.

- E desde quando se importa?

- Desculpa... eu... pensei que estava assim por causa do Miguel.

- Miguel? O que tem ele?


As duas amigas se entreolharam pensativas se deviam fazer neste exato momento o que tinham combinado. Ao ouvirem o som de algo por trás da porta elas sorriram certas de que era a hora.

- O que está acontecendo? Por que estão assim?

- Você não estava sabendo que Carol namorava Miguel?

- An!!??


A porta se entreabriu mostrando uma cena de beijo entre os dois, Carol parecia estar apaixonada com o que fazia e talvez o garoto mostrasse uma cara de espanto. Ana encarava aquilo com angústia e cerrou os punhos trêmula de ódio.

- Você me enganou este tempo todo???

- Ana? 


O rapaz se afastou de Carol ao ouvir sua voz, ele não sabia como reagir naquele momento.

- E-u... 

- Eu nunca gostei de você de verdade... 


Ana saiu chorando caminhando apressada pelos corredores deixando Carol e as outras rindo orgulhosas. Aquilo tenha sido uma das suas armações mais horríveis de todas, e com certeza a mais infantil que existe. 

A garota ruiva se escondeu no banheiro fechando a porta e sentou na tampa do vaso sanitário enquanto mais lágrimas caíam de seu rosto.


24 agosto 2020

É mais que amiga - capítulo dezesseis

 Ana franziu a testa confusa, ela não esperava isso de Míriam. Se ela gostava dela também isso era claro, porém havia apenas um sentimento de amizade pela outra. Se afastou um pouco para pensar melhor no que havia escutado, não estava certa de que tenha sido real ouvir aquilo.

- V-ocê tem certeza? 

- Sim Ana! Porque nunca percebeu antes? Desde o primeiro dia em que nos conhecemos sempre fui apaixonada por você...

- Mas... mas... isso é impossível. A gente nunca... nunca poderíamos ficar juntas.

- Por que não? O que nos impediria disso? O Miguel?

- Tudo Míriam! Meus pais, nossos colegas, as pessoas por aí. E... os meus sentimentos por você... eu a considero apenas como amiga...


Aquilo foi suficiente para fazer o coração de Míriam doer. Ela sabia que não seria fácil contar sobre o que tinha dentro de si, mas se não tivesse se arriscado não teria esta certeza de que Ana não sentia o mesmo por ela.

- Tudo bem... - engoliu em seco - Eu sou muito idiota.

- Não você não é idiota, mas é que...


Míriam não queria ouvir mais nada e se afastou saindo daquela residência o máximo que podia. Chorava enquanto caminhava pela rua, seu rosto molhado e vermelho de tristeza. Ana poderia ter dado uma resposta melhor, mas não haveria como fazer isto, ela só podia dizer a verdade embora não quisesse abalar a amiga. 


Miguel tentou ligar para ela naquele final de noite, mas foi ignorado três vezes seguidas. Ana não conseguia dormir mesmo agarrada ao seu cachorrinho na cama, ela estava tão confusa com o que realmente sentia que forçava para não ter pensamentos estranhos com a amiga.

Míriam dormiu com os olhos cheios de olheiras e não sabia como encarar Ana no dia seguinte na escola.


Os boatos de que as duas seriam apaixonadas uma pela outra correu por toda a escola até chegar aos ouvidos de Miguel. O rapaz não acreditava muito sobre aquilo, ele tinha a certeza de que Ana gostaria dele e que estariam a um passo de começar um relacionamento, mas a pressa por isto lhe consumiu e faria o possível para certificar de que a garota estaria mesmo afim dele.


Míriam não queria ir à aula nesta terça-feira feira, mas haveria uma prova muito importante e não poderia faltar. Ela estranhou os olhares dos colegas ao entrar na sala, pensou que provavelmente eles já saberiam sobre seus segredos que já não eram mais tão secretos assim.

Sentou sobre a cadeira de madeira e abaixou a cabeça tensa e incomodada com aquela situação.


Ana chegou um pouco atrasada na escola, desejava ficar em casa também mas sua mãe a obrigou ir de qualquer jeito. Ao colocar seu caderno sobre a mesa Miguel disparou seus passos para falar com Ana e sentou ao lado dela sorrindo.

- Bom dia. Por que você chegou nessa hora hoje?

- Por que eu quis... - respondeu sem o olhar nos olhos.

- Está tudo bem com você? 

- Sim, porquê?

- É... Por nada... Será que podemos ficar um pouco juntos durante o intervalo da aula?


Ana levantou o olhar por um instante à observar os colegas ao seu redor, Carol não era a única naquele momento que lhe encarava muito.

- Por que eles estão assim? 

- Te olhando muito? Também não faço menor ideia. - mentiu.


Ela suspirou fundo e tentou se concentrar na explicação do professor de história. As horas passaram como uma lebre correndo, Ana estava com fome e foi uma das primeiras a sair da sala para comprar algo na cantina.


20 agosto 2020

É mais que amiga - capítulo quinze

 Míriam voltou para a casa mais triste do que estava à dois dias atrás. Sua avó sabia que algo não ia bem, e mesmo que não compreendesse o que a jovem moderna passaria em suas dificuldades ela jamais deixaria a neta permanecer neste estado.

- O que está acontecendo com você?


A velha perguntou entrando no quarto da garota enquanto se trocava de roupa, retirando o uniforme azul com manchas de suor.

- Não está acontecendo nada vó!

- Não minta para mim, eu a conheço desde criança e sei quando uma coisa não vai bem com você.

- Então porque perguntou? A senhora não entenderia mesmo...


Míriam sentou sobre a cama para mexer no celular, mas sua avó não desistiria de falar com ela e insistiu sentando ao seu lado soltando um leve suspiro.

- Você está apaixonada por alguém? Eu já passei por isso na sua idade...

- Não é a mesma coisa vó. A pessoa que eu gosto não se trata de um garoto! E eu nunca teria uma chance com ela já que me vê apenas como uma amiga!

- Ela é uma menina? Você sente algo por uma menina?

- Sim....


A neta lhe encarou nos olhos esperando um mar de preconceitos descer de sua boca. Mas não era supresa alguma para a mulher, já que sempre desconfiou dos gostos da jovem desde que começou a cuidar dela após a morte de sua mãe.

- E ela não sente o mesmo por você? - prosseguiu com outra pergunta.

- Pensei que a senhora me daria um cascudo, por eu ser lésbica.

- O que eu tenho haver com isso? Não devo julgar minha própria neta se ela mesma sabe o que é melhor para ela...

- Que bom que pensa assim.

- Mas então? O que está esperando para contar toda a verdade para sua amiga? Você só está perdendo tempo!

- Mas... e se ela me disser não?

- Você já tentou pelo menos? Como vai saber o que os outros vão falar se não disser nada à eles? Não tem como prever a reação de alguém, é necessário arriscar às vezes...


Míriam assentiu firme com a cabeça e ficou pensando nas várias formas em que usaria isso ao seu favor. Só precisava que a garota de quem gostava pudesse ter uma empatia com isto, mesmo que não se tornem mais do que amigas, Ana ainda era muito importante para ela.


Sim ela não podia perder mais tempo, Miguel estava mais próximo da amiga e logo poderia começar um relacionamento com ela se isto fosse capaz. Míriam saiu naquela noite para correr até a casa de Ana, não se importando muito se estavam escuras as ruas, ela não temia em andar sozinha e fazia isso desde pequena.


Ao se aproximar do portão aberto da casa ajustou sua calça larga que às vezes tendia a cair. Entrou na residência sem aviso prévio e caminhou pelo quintal até encontrar a janela do quarto da garota. Bateu devagar na esperança de que somente Ana pudesse escutar aquilo e ve-la.

- Que barulho foi esse? - o pai perguntou na cozinha enquanto comia uma coxa de frango.

- Veio do seu quarto Ana - a mãe olhou para a filha que havia ficado confusa.

- Vou ver o que é.


Ana se levantou da cadeira parando seu jantar para descobrir o que era aquilo que havia feito barulho em seu quarto. Ao entrar não percebeu nada de estranho, nenhum objeto fora do lugar, mas novamente alguém bateu na janela e assustou a garota. 

- Um ladrão!!!

- Não boba! Sou eu Míriam. Abre aí!


Ana suspirou aliviada e abriu a janela para ver a outra do lado de fora. 

- O que está fazendo aqui? - perguntou franzindo a testa - Pensei que estaria na casa da sua nova amiga.

- Para isso sua besta! - Míriam retrucou irritada - Já lhe disse que nós não somos amigas! Eu estou aqui por que tenho uma confissão à fazer.

- Virei padre agora?


A mãe de Ana entrou no quarto para ver o que estava acontecendo e reparou que a filha conversava com alguém.

- Quem está aí com você?

- É a Míriam mãe...

- Deixa ela entrar então.

- Não precisa, eu vou sair...


Ana saiu do quarto e depois pela porta da cozinha para poder conversar melhor com amiga do lado de fora da casa.

- Fala logo o que você quer.

- Parece que está com raiva de mim, mas quem deveria estar assim sou eu.

- Por qual motivo eu estaria te dando raiva?

- Por que você não me ouve. Sabe que o Miguel não gosta de você de verdade.

- Se ele gosta ou não o problema é meu!

- Tá mas... eu também entro nesta história.

- Você é apenas minha amiga, não deve inteferir no que eu devo ou não fazer da minha vida amorosa. 


Míriam abaixou a cabeça tensa e respirou fundo para ter coragem de dizer logo.

- Mas... eu g-osto de você Ana... Sou apaixonada por você.


17 agosto 2020

É mais que amiga - Capítulo quatorze

 Ana queria não acreditar naquilo, esperava que Miguel não estivesse dizendo a verdade, mas olhando para as meninas na mesa distante aquilo não deixava mais dúvidas.

- Porque ela não me contou sobre isto?!


Agora se lembrava de quando Míriam havia deixado de revelar algo naquela noite em que brigaram. Tudo fazia sentido e isso a deixava nervosa.

Ana se levantou da mesa pegando o prato que ainda estava cheio para devolver na cantina.

- Ei! Espere! - Miguel a puxou no braço a impedindo de sair - Pensei que queria ficar aqui comigo.

- Tenho coisas mais importantes! - ela resmungo triste.


Míriam subiu seu olhar para aquela cena confusa da amiga deixando o rapaz sozinho. Não estava se sentindo nem um pouco confortável com as conversas paralelas das meninas ao seu lado. 

- Com licença - ela disse ao sair do local deixando as outras lhe perseguirem com olhares.

- O que ela vai fazer? - Daniely perguntou tensa.

- Não sei, mas vamos ver de perto! - Carol se agitou levantando em seguida.


- Ana! Está tudo bem? - Míriam corria em sua direção para alcança-la.

- Isso te importa? - a outra respondeu cabisbaixa.

- O que aquele cara fez com você? 

- O Miguel não fez nada... Você que fez!!!

- Eu o quê?


As duas se encararam nos olhos, uma extremamente confusa enquanto a outra quase a demorava de raiva.

- Por que virou amiga de Carol? Ela é melhor do que eu?

- Eu... Espera... quem disse que sou amiga dela???

- Miguel viu no status do Whatsapp dela uma foto com as duas juntas! Você me disse que queria ter contado sobre isso na noite de sábado mas acabou discutindo comigo!

- Nunca tirei foto nenhuma com aquela lambisgoia! E não era sobre isto que eu queria ter falado com você naquele dia!

- Era sobre o que então?


Um frio intenso lhe percorreu a barriga, Míriam não seria capaz de revelar este segredo tão estranho que guardava dentro de si. 

- E-eu não posso dizer...

- Porquê? Você não confia em mim? Eu não sou mais sua amiga?

- Não faria nenhuma diferença... você ainda gosta do Miguel...


O sinal tocou para retornar à aula, Míriam aproveitou aquilo para fugir de mais questionários da amiga e a deixou no corredor perdida, enquanto a outra tentava descobrir o que aquelas palavras significavam.

Carol sorria com sua vitória do momento, estava certa de que Ana voltaria a ser aquela garota sozinha nos intervalos das aulas, sem um amiga por perto e com um coração partido. Ainda havia mais alguma coisa que desejava fazer para finalizar sua estratégia.


14 agosto 2020

É mais que amiga - Capítulo treze

 Aquele sábado poderia ter sido mais agradável se não fosse pela simples discussão que ocorreu entre elas, que ficaram o dia seguinte inteiro sem se comunicar direito. 

Ana ainda tentava entender o motivo daquela reação de Míriam, ligou algumas vezes para falar com ela mas não foi atendida.


Na segunda feira havia chegado mais cedo na escola para poder ver a amiga por mais tempo. Ana a procurou na sala de aula e em alguns lugares do pátio que mais frenquentavam juntas.

Estava quase na hora de começar a aula quando finalmente quase se esbarraram no corredor. 

- Míriam!? Olha podemos conversar sobre ontem de ontem...

- Melhor não, vamos deixar aquilo para lá.

- Tem certeza? Você não parece bem com isto? 


A garota suspirou fundo assentindo e ajeitou um pouco melhor a mochila sobre suas costas. 

- A aula vai começar, vou ter prova agora. 

- Boa sorte... Ainda somos amigas né?

- Uhun...


Míriam se afastou indo em direção à sala e entrou sem olhar para trás. Ana ainda não compreendia aquilo mas sua mente se esqueceu totalmente do assunto depois que viu Miguel se aproximar com aquele sorriso animado no rosto.

- Bom dia Ana... Como foi seu domingo?


A garota se estremeceu tímida e sorriu olhando para o rapaz em sua frente.

- Foi muito legal e o seu?

- Foi ótimo, mas seria melhor ainda com você.

- V-ocê... está realmente gostando de mim?


Miguel demorou responder quando uma turma de colegas passou por perto.

- Sim, é claro que sim. Vamos entrar na sala?

- Sim vamos...

- Tudo bem se eu me sentar ao seu lado? 

- Er... sim, c-laro!


Os dois entraram na sala e ficaram a aula toda se entreolhando. Carol os observava sentada mais longe, para deixar o cazalzinho mais à vontade. Ali pelo menos podia ter a certeza de que Ana não seria uma garota lésbica, mas precisava fazer mais do que confirmar isto, ela queria ir muito além.


Ao final da aula, Ana e Miguel sentaram juntos enquanto comiam na cantina da escola. Míriam passou por eles com seu olhar baixo e tentou ingnorar aquilo sentando muito mais distante.

- Viram isso? - Carol cochichava com as amigas em um canto - Parece que não estão mais amiguinhas.

- Acho que a Míriam realmente gosta de Ana - Daniely comenta - Na verdade parece mais do que apaixonada.

- E pelo visto - Paula sorri - Está com ciúmes da amiga.

- Hum.... - Carol se levanta da cadeira animada - Tenho uma ideia agora. Que tal fazermos companhia para a pobrezinha? Ana vai adorar ver isto!


Suas amigas ficaram confusas com a prosposta mas aceitaram a seguir Carol até a mesa de Míriam para sentarem ao seu lado.

A garota gótica ficou as encarando séria sem compreender que intenção era aquela.

- O que fazem aqui? Me deixem só!

- Me desculpe incomodar Míriam - Carol suspirou fundo, parecendo se importar com isto - Mas a gente percebeu o que está acontecendo entre você e a Ana.

- Perceberam? - Míriam sentiu um certo medo naquilo.

- Sim, e vimos que está sozinha agora, não tem mais nenhuma amiga... Então a gente pensou se... você gostaria de ficar com a gente no intervalo da aula.


Ana estava muito empolgada conversando com Miguel que demorou um pouco para perceber que sua amiga estava sentada junta com aquelas que menos esperava.

- O que elas estão fazendo com Míriam?

- Parece que são amigas agora - Miguel respondeu sorrindo.

- Como assim? Isso jamais seria possível!

- Não estava sabendo? Eu vi ontem no status da Carol uma foto que ela postou junto com a Míriam. As duas estão amigas desde semana passada.

- QUÊ????? 


13 agosto 2020

É mais que amiga - Capítulo doze

 Ana a chamou para conhecer seu quarto, havia aproveitado o dia todo para organiza-lo e mostrar à amiga. Fuxico estava deitado em sua cama, sorte que o animal não soltava muito pelo. As paredes do quarto estavam cheias de fotos antigas, da época em que Ana havia começado o ensino fundamental.

- Você tem uma casa maneira! A mais organizada que já vi. - Míriam sorriu - Eu no mínimo guardo minhas roupas e a sala como já viu é bastante bagunçada.

- Não precisa exagerar, já vi coisas piores.

As duas riram e sentaram na cama para iniciar uma longa conversa, já que o jantar sairia depois de uma hora.

- Fico muito feliz por ter vindo! - Ana dizia enquanto pegava seu cachorrinho para colocá-lo no chão - Eu tenho uma ótima novidade para te contar.

- Eu também tenho... - Míriam suspirou fundo - Se quiser pode falar primeiro.

- Não, melhor você primeiro.

- Você primeiro!

- Vai você logo!

- Não! Eu já disse primeiro que é para ir você primeiro!

Ana assentiu rindo e segurou na mão da amiga para poder falar.

- O Miguel... ele está me enviando mensagens.

- Miguel? - Míriam perguntou confusa e perturbada.

- Sim, o próprio! Ele me pediu desculpas por ter agido de forma tosca comigo, e agora está querendo se aproximar melhor de mim.

A amiga não esboçou nenhum sinal de felicidade, o que estaria sentindo é totalmente o contrário. Havia um medo e uma tristeza trasparecendo em seu rosto e Ana podia notar aquilo.

- Ei, está tudo bem?

- S-sim... é que... V-ocê... Ainda gosta dele?

- Desde a quarta série! 

Míriam abaixou a cabeça e acaricou Fuxico que estava sobre os seus pés a lambendo.

- Qual era a novidade que queria me contar? - Ana perguntou se aproximando mais.

- Esquece, não era importante.

- Mas está tudo bem com você mesmo? Parece que não gostou muito do que te contei.

- Claro que não! 

- Quê? 

Ana franziu a testa tentando compreender sua amiga e a viu se levantando da cama com um olhar tenso.

- Quero dizer... Ele é um garoto idiota! Nunca gostou de você e sempre te deixou ser humilhada pelos colegas. Será que não percebe que está perdendo o tempo com ele?

- Pensei que estivesse feliz por saber que finalmente eu ficaria com o garoto que tanto amei! - Ana reclamou séria - Você também gosta dele né? Por isso não quer que eu e ele...

- Não! Eu nunca disse que gosto dele, tenho outro tipo de atração...

Míriam preferiu não prosseguir com aquilo, ela não estava pronta para revelar de seus verdadeiros gostos para ninguém, ainda mais agora que a amizade dela com Ana estava parecia estar indo para o fundo do poço com esta conversa, não teria quem a apoiasse.

- Meninas! Está na hora da janta! - a mulher gritou da cozinha.

Elas saíram do quarto com seus olhares baixos até chegarem à mesa. Nenhum dos pais notaram algo errado porque elas tentaram fingir que nada aconteceu com risos temporários.

Míriam decidiu voltar mais cedo para casa, não tinha mais o que fazer com a amiga. Ela se despediu de Ana com um breve aperto de mãos e saiu pela porta da sala caminhando novamente pelas ruas poucos iluminadas do bairro.


12 agosto 2020

É mais que amiga - Capítulo onze

Finalmente o celular de Ana vibrou, havia chegado uma nova mensagem de Miguel e nela respondia que estava tudo bem com ele e que seu celular havia descarregado ontem à noite.

A garota ficou aliviada e caminhou até a cozinha sem desgrudar do aparelho.
- Bom dia minha boneca - sua mãe sorriu enquanto colocava um prato de panquecas na mesa - Larga este celular para comer, não é saudável.
- Bom dia mãe. Me desculpe é que um menino estava conversando comigo.
- Um menino? Ele é do seu colégio?
- Sim... mas... é só um amigo...

Após tomar o café da manhã se adiantou para fazer as unhas que há uma semana não cortava. O papo com o rapaz estava indo bem, ele até tirou foto do próprio cabelo para mostrar à Ana o quanto estava crescendo.
Enquanto isso Míriam também mudava o seu, tentou enrolar as pontas lisas para deixar com uma aparência mais delicada e experimentou a camisa nova que usaria esta noite. Era uma regata azul claro com coraçãozinhos  vermelhos em toda parte.

Ela pegou seu celular para ligar à Ana mas a amiga não atendia, estava online o tempo todo e isso era confuso. Depois de mais uma tentativa finalmente pôde ouvir sua voz do outro lado da linha.
- Bom diaaa Aninha! Está tudo bem?
- Sim er... estou muito melhor hoje.
- Que bom, eu também, e muito anciosa para te ver novamente. Vou chegar aí às 19:00 pode ser?
- Tá... tanto faz.
- O que você está fazendo?

Míriam deitou sobre a cama enquanto esperava a realista da amiga.
- Amigaaa eu tenho uma novidade para te contar hoje! Quando você vier aqui eu direi.
- Ei! Não me deixe curiosa!
- Não se preocupe, é algo bom - Ana riu.
- Tudo bem então, nos veremos logo! Beijos!
- Beijos.

Ao desligar, Míriam excitou de alegria, não sabia o que a amiga tinha para lhe contar, mas também queria falar algo que era muito importante, que estava entalado na garganta.

Quebra de tempo
Ana estava vestida com um vestidinho rosa de alças de laço. Passou um leve perfume e foi até a sala para ver se a amiga já havia chegado. Seu pai assistia o jornal pela TV e a mãe cortava uma batata para fazer um delicioso purê.
- Ela ainda vai demorar minha filha? - perguntou a mãe notando a filha inquieta.
- Já está na hora, ela devia ter chegado.

Um minuto depois uma garota apareceu caminhando pela calçada do bairro seguindo em direção à porta da casa de Ana, bateu devagar e esperou abrir. Elas se abraçaram antes que pudessem dizer oi e se adiantaram a entrar para fechar a porta.
- Mãe, pai... esta é Míriam, minha nova amiga.
- Seja bem-vinda. - o homem respondeu da sala.
- Veio sozinha? - a mãe se aproximou preocupada.
- Sim... eu moro com minha avó mas nenhuma de nós duas sabemos dirigir um veículo.
- Cuidado, é perigoso sair assim nas ruas durante a noite.

11 agosto 2020

É mais que amiga - Capítulo dez

Ana estava contando as horas para passar o dia, enquanto comia seu lanche da tarde lembrava da dança que teve com Míriam. Queria ter ficado mais tempo com ela, infelizmente tinha obrigações à fazer em sua casa.

Antes de deitar em sua cama para dormir olhou seu celular procurando alguma mensagem da amiga ou outro contato não muito importante. Seu corpo quase gelou quando viu uma notificação de alguém aparecer. Era a pessoa que menos imaginaria lhe notar algum dia, ele havia lhe enviado uma mensagem em plena noite.
- Miguel? O que será que ele quer...

Visualizou sentindo um pouco de ansiedade e franziu a testa ao ler o que estava diante dos seus olhos.

Oi linda tudo bem? Me desculpe por agir como um idiota com você 😓
Queria poder me aproximar mais

Ana não sabia o que responder, não poderia negar que no fundo estava se sentindo feliz com isto. Era tudo o que mais queria há anos, havia escrito no próprio diário falando sobre este amor não correspondido. Hoje teria a chance de se aproximar do garoto popular da escola.

Oi Miguel 😊
Tudo bem, não precisa se desculpar
Como você está?

Ele não respondeu depois, e isso deixou a garota mais tensa. Não conseguiu dormir direito nesta noite, seus pensamentos a levavam para lugares tão distantes. Acordou de madrugada para visualizar novamente o celular, mas ainda não havia alguma resposta sequer.
_Será que ele está brincando comigo? Está me fazendo de idiota._

O dia amanheceu, havia chegado o tão esperado sábado e Míriam acordou tão alegre que até sua avó a desconheceu. Ela saiu para comprar uma camisa nova para usar já que a ocasião pedia algo mais suave e queria fazer os pais de Ana terem a impressão de que era uma garota "normal". Não entraria na casa deles com uma camisa larga com estampa de caveira.

10 agosto 2020

É mais que amiga - nono capítulo

 Miguel jogava bola com os amigos da escola em um campinho abandonado na periferia da cidade, ele não era dos melhores jogadores, só conseguiu fazer um gol durante uma semana de partida, mesmo assim era o preferido das garotas. Seu porte físico atlético e sua pele de cor morena o destacava entre muitos garotos parecidos.

- Miguel! - uma voz conhecida o chamou quando o primeiro tempo acabou.

O rapaz limpou o suor da testa com a camisa e se aproximou de uma jovem loira que parecia anciosa em ve-lo.

- Será que podemos conversar?

- Agora não Carol. Estou no meio de um jogo, meu time está quase perdendo.

- Sinto muito por isso, mas o assunto é importante!

Os dois se afastaram do campo e entraram num beco ao lado de um balcão velho.

- O que você quer?

- Preciso de sua ajuda, é sobre a Ana. 

- A pelo amor de Deus! - Miguel revirou os olhos - Porque todo mundo gosta de me encher a paciência com esta garota idiota?

- Ah para né! Não adianta fingir que não gosta dela, sempre notei desde o começo do ensino fundamental que tentava ao máximo se distanciar dela por timidez. Você não quer adimitir!

- Não sei porque está falando a respeito disso, você gosta de mim, sempre me quis né, então porque agora está atirando Ana para cima de mim?

Carol se afastou um pouco para pensar no que iria dizer e passou a mão por seu cabelo o ajeitando um pouco.

- Não estou atirando ela para cima de você, o que eu quero é totalmente o oposto. Você quem vai se atirar para cima dela!

- O quê?

- Escute o que estou lhe pedindo. Quero que se aproxime dela, faça com que ela se apaixone por você. Será que é tão difícil assim?

- Mas... e você? Pensei que queria ficar comigo.

- Me poupe Miguel! Não sou otária como as outras garotas.

O rapaz cruzou os braços especulando sobre aquilo, foi quase uma ofensa para ele. Não fazia ideia do que Carol queria aprontar com isto, mas algo de  bom não era.

- Tudo bem, posso tentar. Mas eu nunca pude me aproximar de Ana porque a turma me zoaria.

- Eles não vão te zoar, eu tomo conta disso. Segunda feira quero que dê início, mas por favor... Não se faça de ingênuo, não tenha medo de tocar nela. 

Carol saiu para voltar ao passeio com as amigas e Miguel retornou ao jogo. A tarde ainda levaria algumas horas para chegar.


07 agosto 2020

É mais que amiga - oitavo capítulo

Míriam estava sozinha em casa, por sorte sua avó gostava de sair nestas horas para tomar café com as amigas do rolê. 

Ouviu a campainha tocar e se levantou depressa para ver Ana chegar.
- Own... que fofinho!

O cachorrinho da amiga era um pedaço de fofura irresistível, Míriam o pegou do chão para abraça-lo e dar um beijo em sua testa.
- Qual é o nome dele?
- Fuxico. Na verdade foi minha mãe quem deu o nome. Eu não sabia escolher.
- Engraçado, mas ele é lindo!
- Sim...

As duas se olharam por um tempo até Míriam soltar o cachorrinho e chamá-la para entrar.
- O que você quer comer? Tem bolachas de chocolate e biscoito de polvilho.
- Não quero comer agora, obrigada. Você mora sozinha? - Ana caminhou pela sala.
- Não... eu tenho uma avó, esqueceu? Estou morando com ela, mas pretendo alugar um apartamento quando estiver maior.
- E deixar a velha no asilo?

Míriam surpreendeu com a pergunta e percebeu Ana rindo em seguida.
- Brincadeira, sei que você não faria isso.
- Er... podemos falar sobre outra coisa? Tipo... amanhã vou estar na sua casa e conhecerei seus pais. Espero que eles deixem nós irmos para um cinema em algum dia desses.

Ana assentiu com a cabeça, era o que mais queria, nunca teve uma diversão com amigos, era a garota mais antisocial da turma até encontrar Míriam.
- Você gosta de ouvir música?
- Prefiro Rock, mas também curto outros estilos... Quer ouvir um?
- Sim, podemos dançar um pouco. - Ana sorriu animada.

A garota ligou sua caixa Bluetooth e escolheu uma faixa das antigas, The animals - The house of the rising sun (1964) e começou a dançar pela sala olhando para a amiga.
- Eu não sabia que era dessas - Ana disse suspresa - Meu avô adorava escuta-la.
- O meu também... e ela sempre me faz lembrar dele.

Ana suspirou a observando e soltou seu cachorrinho para deixa-lo livre enquanto se divertia com a amiga. Míriam puxou sua mão para ensinar alguns passos lentos que acompanhavam o ritmo da canção, as duas fixaxam seus olhares ao chão e a outra à sua frente.
- Está gostando?
- Sim, eu não sei qual é o significado da música mas... o ritmo é interessante.
- A casa do sol aceso, alguma coisa assim, eu não manjo bem de inglês.

As duas riram até a música acabar e começar a tocar outra. Ana lembrava de que deveria estar ajudando a mãe a limpar a casa hoje e ela a procuraria agora.
- Me desculpe mas já tenho que ir.
- Porque? Fica mais um pouco.
- É a minha mãe... ela precisa de mim. Podemos nos ver amanhã à noite.
- É muito tempo para esperar...
- Esperar pelo quê?

Míriam respirou fundo e "entalou" a garganta para não que saísse algo indesejável de sua boca, algo que não poderia ser dito agora.
- Para te ver, apenas isto. Mas tudo bem... podemos nos ver amanhã então.
- Gostei de ter dançado com você, da próxima vez vai ser com minhas músicas favoritas.
- Tudo bem.

Ana se despediu da amiga e pegou seu cachorrinho para voltar para casa. Ao ve-la sair pela porta, Míriam abaixou um pouco a cabeça e voltou ao seu sofá para continuar lendo postagens bobas pelo Twitter.

05 agosto 2020

É mais que amiga - sétimo capítulo

Ana e sua mãe caminham pelas prateleiras do supermercado fazendo as compras do final de semana. A garota olhava com água na boca um delicioso panetone de frutas.
- Mãe! Podemos levar? - ela indica com o dedo sorrindo.
- Para quê? Nem é Natal ainda. - Vânia diz pegando um pacote de arroz.
- Mas eu e Míriam adoramos! - Ana pega o panetone o colocando no carrinho.
- Teimosa! - sua mãe revira os olhos e se afasta procurando o saco de açúcar.

Ao sair do supermercado Ana quase se esbarrou em Miguel sem querer. Seus olhos se encontraram pálidos mas Ana desvia o olhar em seguida.
- Me desculpe... eu não a vi... - suas bochechas morenas coram para um tom mais rosado.
- Está tudo bem. - Ana se afasta tentando o ignorar, caminhando na direção do carro de sua mãe.

O olhar do garoto dizia muito o que sentiu neste simples esbarrão, foi uma leve sensação estranha, talvez ele tenha algum sentimento escondido pela garota, mas refutou em seu pensamento para prosseguir adiante ao estabelecimento.
_Idiota!_ O pensamento de Ana quase deixou transparecer com palavras.
Ela viu sua mãe ligar o veículo e se ajeitou no banco para ficar mais confortável.

Carol marcou um encontro com Daniely e Paula na centro da praça às 3 horas da tarde, combinaram de comprar sorvetes e sentar sobre um banco mais afastado ao lado de  um jardim recém produzido.
- Eu ouvi boatos de que Míriam é lésbica! - Daniely disse lambendo o sorvete de morango.
- Como? - Carol paralisa com sua fala deixando um pedaço do seu cair no chão. - Ela... é lésbica?
- Gente! Isto é mais estranho do que eu imaginava! - Paula ri com olhos arregalados.
- Sim isto mesmo que ouviram. - Daniely prossegue - Essa menina usa roupas esquisitas, tem cabelo curto, não desgruda de Ana para NADA!
- Bem que eu suspeitava. - Carol ficou pensativa e olhava para os lados tensa. - Então quer dizer que Ana também é!
- Nossa! Logo ela que dizia ser apaixonada por Miguel? - Paula solta uma risada revirando os olhos.
- Segunda-feira veremos melhor isso... Se for verdade vamos aprontar muito com elas.

A sexta feira começou um dia quente e agitado, não havia aula no colégio onde Ana estuda, os professores escolheram a data para uma reunião de conselho de classe. Isso era bom porque a garota poderia aproveitar bastante o dia para brincar com seu filhotinho de labrador.
Colocou uma coleira nele para passear pelas calçadas do bairro e sentir o sol bater na pele, de certo também precisava de um pequeno bronzeamento.
Se ela soubesse onde ficava a casa da amiga estaria indo agora mesmo para lá, então pegou seu celular para conversar com ela e perguntar a respeito.

Míriam ouviu seu celular tocar no sofá da sala e se apressou em atender Ana com entusiasmo.
- Oie, está tudo bem com você? - ela perguntou antes.
- Sim... eu... não sei onde fica sua casa. É que hoje não tenho nada para fazer durante o dia todo e estava pensando em te visitar.
- Oh. Claro! Vou te enviar a localização. Estarei te esperando.

Ana encerrou a ligação e recebeu o endereço com um emoji de coração:

Não demore rsrs ❤


03 agosto 2020

É mais que amiga - sexto capítulo

Ana jantava com os pais na mesa da cozinha, haviam poucas verduras para acompanhar o arroz e a carne moída. Vânia comia tranquilamente olhando para a filha tão calada na mesa.
- O que foi desta vez? - ela pergunta levando o garfo cheio à boca.
- Eu... queria convidar uma amiga para pousar aqui em casa... - Ana responde sem olhar para a mãe.

Se a resposta da mulher for um sim, Ana com certeza ficaria muito empolgada. Seria sua primeira vez dormir num mesmo local com alguma amiga mesmo que fosse em sua própria casa.
- Depende de como ela é. - Vânia responde mastigando.
- Ela é legal, simpática e não faz bagunça! - Ana ri levando um copo com suco à boca e bebe um pouco.
- Deixa ela trazer a menina! É bom ver nossa filha fazendo amizades! - o pai diz orgulhoso olhando nos olhos da filha.

Ana vê sua mãe suspirando um pouco tensa e assente com um breve sorriso.
- Está bem! Pode, mas só no sábado. 
- Ebaaa. - Ana exclamou empolada e deu um beijo no rosto da mãe.

Seu pai se diverte tacando alguns grãos de arroz na filha que percebe sua atitude e revida com um pedaço de carne.
- Ei! Podem parar de desperdiçar alimento! Chega os dois! - a mulher bufa contrariada e os três caem em uma gargalhada.

Em casa, Míriam lavava a louça suja da janta enquanto sua avó fazia alguns biscoitos para deixarem para o café da manhã do dia seguinte.
O silêncio da casa é deixado quando o celular de Míriam começa a tocar uma música rock, uma canção da banda Evanescense. A avó não liga muito para o som agitado mas pede para a neta abaixar o volume. Míriam assente revirando os olhos e coloca  um fone de ouvido para que somente ela escute.

Seus pensamentos estavam em Ana, nos cabelos ruivos encaracolados e seus olhos claros como mel. Ela tentava esquecer uma paranóia que sugia em sua mente mas era impossível ignorar aquela possibilidade _ que parecia assustadora.
- Presta atenção no que está fazendo!- sua avó avisa ao ver a escuma escorregar de suas mãos e cair no chão.

Míriam se assusta e solta uma risada ao notar o que fazia. _Culpa de Ana..._ Ela pensa sorrindo e continua a lavar a poucas panelas que ainda restavam na pia. Estava ansiosa para se encontrar com a amiga em breve, seu coração estranhamente desejava aquilo. 

02 agosto 2020

É mais que amiga - quinto capítulo

Se alguém as vessem podiam jurar que era amigas desde a infância. Ana e Míriam sempre se encontravam durante o intervalo, às vezes na biblioteca, na quadra ou no refeitório mesmo. Suas conversas paralelas se transformavam em sorrisos e brincadeiras.

Carol as observava de longe com um olhar petulante. Ela cochichava entre as amigas sobre a cena tão infantil das duas.
- Elas estão amigas desde o bimestre passado. - diz Daniely bebendo um suco de caxinha.
- Desde o dia que levei suspensão. - Carol desdenha franzindo a testa. - Mas essa amizade não vai durar muito!
- O que você quer dizer com isso? - Paula arqueia a sombracelha ajeitando seus cabelos castanhos.
- Que eu ainda vou fazer Ana se curvar diante de mim. - ela responde num tom sarcástico fazendo as duas ao seu lado se conterem em uma risada atônita.
- Você não cansa mesmo hein. - sorri Daniley que jogava a caixa no lixo ao lado.

Míriam viu uma mecha do cabelo de Ana soltar na testa e passa os dedos a colocando para trás de sua orelha.
- Está linda... - ela sorri olhando em seus olhos.
- Obrigado, você também. - Ana fica corada e se levanta da cadeira. - Vamos voltar para a sala. Logo o sinal tocará!

Míriam revira os olhos e faz o mesmo que Ana caminhando ao seu lado em direção à saída do refeitório.
- Ei! Que tal essa noite nós duas passarmos num cineminha? - Míriam se anima com os passos soltos.
- Cinema? Hum... Não sei se vai dar certo. Meus pais não deixariam eu sair de casa à noite com alguém que eles mal conheçam.
- Então me leve para conhecer seus pais! Vou adorar! - seus olhos brilham como o de uma criança pedindo doce.
- Uau! Você está mesmo animada! - Ana arregala os olhos sorrindo e cruza o corredor que leva às salas.
- Eu tenho a melhor amiga do mundo! - Míriam a abraça antes de entrar na sala surpreendendo Ana com seu toque firme e macio.

As duas se desgrudam do abraço em seguida se afastando e seguindo seus caminhos opostos.
- Eu digo o mesmo! - Ana finaliza antes de sumir pelo corredor.

A cabeça das duas estavam repletas de pensamentos harmoniosos e seus corações pareciam dois relógios que giravam os ponteiros incessantemente. Havia algo de estranho naquilo que elas mesmas não compreendiam.

Ana viu o silêncio de Carol por toda a aula, aquilo a assustava mais que qualquer provocação da garota. Era tão desconfiante que Ana cedeu a encara-la seriamente em seus olhos.
- Perdeu alguma coisa aqui? - Carol retrucou com um sorriso audacioso.

Ana não pronuciou nada e voltou sua atenção para a lousa cheia de cálculos matemáticos. _Ela está escondendo algo.. eu sinto..._ Sua dúvida a inquietava na cadeira dura de madeira.


01 agosto 2020

É mais que amiga - quarto capítulo

Míriam pegou seu prato no refeitório e viu Ana sentada em um canto isolado. Ela se aproximou com passos rápidos e sorriu para a mesma sentando ao seu lado.
- Oi. Está tudo bem?

Ana assentiu com a cabeça sem levantar o olhar para a garota.
- Está mesmo? Não parece... - Míriam levou uma colherada de arroz e feijão na boca.
Ana olhou em seus olhos procurando uma forma de se expressar sem parecer chata.
- Odeio esta escola.
- Por quê? A briga daquele dia rendeu algo a mais? - os olhos de Míriam se arregalam curiosos.
- Eu sou uma menina idiota! Mereço tudo menos simpatia das pessoas. - Ana diz cabisbaixa.
- Ei! Não fala isso! - Míriam afasta o prato e pega no braço da garota ruiva. - Olha eu não sei o que houve com você... Mas com certeza imagino que haja alguma coisa em seu interior que a torne melhor do que essas palavras ditas.

Ana fica encantada com a fala dela e sorri de lado envergonhada.
- Você é a única que me entende.
- Não tem problema isso, o que importa não é quantidade de pessoas que se importam com você, mas sim a qualidade delas. Aliás... eu te vejo muito sozinha nesta escola, suponho que não deva ter muitas amigas né? - Míriam franze a testa e puxa o prato novamente para si.
- Na verdade eu não tenho nenhuma. - Ana responde suspirando. - Todas me vêem como uma menina tola.
- Todas entre aspas. - Míriam rebate comendo aos poucos. - Te achei muito legal.

O sorriso de Ana aparece ao ouvir aquilo e observa a garota ao lado comer devagar.
- Você tem bons modos. Se fosse eu estaria devorando este almoço como um cão! - ela ri e nota as bochechas de Míriam corar.
- As coisas são ainda melhores quando não escondemos nada. - seu riso acompanha o de Ana deixando o lugar mais tranquilo para ambas.

As duas caminham de volta à sala uma do lado da outra olhando para os lados sentindo a falta de um novo assunto.
- Então... você gosta de alguém aqui? - Míriam pergunta penetrando seu olhar curioso em Ana.
- Gostava. Até ser humilhada em sala aula. - Ana dá de ombros e se aproxima da porta pegando na maçaneta.
- Isso é muita covardia! Sinceramente eu acho os garotos uma espécie de animais de difícil domesticação. - Míriam revira os olhos rindo e se afasta um pouco deixando Ana entrar na sala.
- Mas e você? Sente algo por alguém? - Ana pergunta antes de passar pela porta.
- Na verdade não sei... Eu já tentei gostar de um menino mas como eu disse, eles são impossíveis! - seu olhar fica sério encarando alguns garotos que passavam por perto.
- Eu entendo. - Ana se cala por alguns minutos. - Até mais! Já vou entrar.
- Boa sorte fofa! - Míriam sorri dando uma piscadela para ela e caminha pelo corredor na direção oposta.

Ana entrou na sala com seus pensamentos flutuantes e uma dúvida que nascera em sua cabeça. _Garotos são sempre assim?_


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