31 julho 2020

É mais que amiga - terceiro capítulo

A professora de Ana explicava alguns conceitos de física mostrando alguns experimentos para a classe. Sussurros eram vindos do fundo da sala enquanto Ana tentava se concentrar no conteúdo. Ao ouvir seu nome seu olhar empalidece e vira para trás vendo os rostos dos colegas se combrirem de risos.
- Coitada da menina, Miguel. - um garoto dá um tapinha na cabeça dele o fazendo corar de vergonha.
- Me deixe em paz mano. - Miguel afasta ao toque do amigo.

Ana se sentia incomodada com aquilo e juntou suas coisas as guardando na mochila. Saiu da sala em silêncio de cabeça baixa caminhando pelo corredor com passos lentos.
Ela havia ligado para seu pai se encontrar com ela no portão do colégio. Seu anseio em voltar para a casa era enorme. Enquanto esperava por isso batia seus pés na terra do pátio deixando seu ódio esvaziar aos poucos.
- O que aconteceu? - seu pai perguntou ao volante dirigindo atenciosamente pela avenida.
- Nada... - Ana sussurrou olhando pela janela do carro.
- Por que você não quer falar? Fez alguma coisa errada, não foi? - ele franze a testa olhando para a filha.
- Meus colegas pai... Odeio eles! - ela responde fechando os punhos por debaixo da mochila em seu colo.
- Quando chegarmos em casa vamos conversar melhor sobre isso. E sua mãe vai ficar louca se souber que fugiu da aula. - ele diz num tom sério girando o volante para a esquerda.

Ana apenas se encolhe no banco dando um leve suspiro de tensão. Aquilo quase sempre lhe ocorria, desde o ensino fundamental. O fato de ser uma garota tímida e de poucas palavras a fizeram dela um alvo fácil de chacotas dentro da sala. Ela também não sabia como lidar com seus sentimentos, todos os garotos pelos quais se apaixonou de alguma maneira a faziam se sentir inútil.

Chegou em casa jogando sua mochila no sofá da sala e caminhou até os braços abertos da mãe.
- O que foi Ana? - Vânia sussurrou no ouvido da filha.
- Quero mudar de escola! Essa não foi o primeira vez que pedi isso! - Ana responde olhando em seus olhos deixando um gota de lágrima cair.
- Eu já te falei. Não podemos te matricular em outra por agora. Seu pai não poderá ficar te levando para longe todos os dias e a escola mais próxima que temos é essa. Você tem que se conformar por enquanto. - Vânia responde passando as mãos pelo cabelo da garota.
- Até eu terminar o ensino médio?! - Ana bufa se afastando do abraço. - Assim não adianta!

Ela pega sua mochila do sofá e caminha até o quarto fechando a porta com força. Seu rosto se desmancha de puro desgosto.
Vânia olha para os olhos tortos do marido e balança a cabeça tensa.
- Se as coisas piorarem, precisamos dar um jeito!

O homem concorda com sua esposa e se afasta na direção da porta.


É mais que amiga - segundo capítulo

Vânia beijou o rosto da filha e entregou sua mochila. Ana adorava aquilo e despediu-se de sua mãe antes de entrar no carro de seu pai. Durante o caminho ela sorria, pois tinha a certeza de que seu dia de hoje seria ótimo. Carol levou suspensão de três dias... pelo menos.

Ao entrar no portão do Colégio ela fez questão de olhar para todos os lados para ter certeza de que valeu a pena sua conversa com o diretor. Sentou em sua cadeira e encarou os colegas com um olhar tenso.
Hoje quero paz.

Miguel não se aproximava, Ana sabia que ele não se importava com aquilo... Nunca gostou da garota.
Durante o intervalo, Ana sentiu o desejo de ler, de viajar numa fantasia e distanciar da realidade. Entrou na biblioteca que ficava no fundo da escola.
Silenciosa e vazia, Ana apenas sentia o frio do lugar. Ela pegou um romance aventureiro e sentou-se numa mesa larga.
A leitura a levava para um mundo mágico, onde as meninas indefesas possuíam heróis e tinham finais felizes. Uma garota entrou com um livro nas mãos e o colocou numa estante.

Ana olhou para para o lado e identificou aquele cabelo.
- Oi... - sorriu.
- Ah... Olá! - Míriam a reconheceu e se aproximou. - Hum... O que você está lendo?
- Os desejos de Helen. - Ana mostrou a bela capa.
- Nossa, parece bom. - Míriam sentou ao seu lado. - Então, qual é mesmo seu nome?
- Ana, e o seu? - soltou uma risada.
- Míriam. - a garota usava um blazer preto e uma meia calça branca.
- Adorei seu estilo. - Ana sorriu.
- Obrigada. - suas bochechas coraram.
Ana amarrou o cabelo ruivo que pendia sobre seu rosto.
- Amo a cor do seu cabelo. - os olhos de Míriam brilharam.
- Obrigada. - Ana sorriu e voltou a leitura.

Míriam olhou pela janela e suspirou várias vezes. Ana sentiu que algo imcomodava a garota.
- Está tudo bem?

Míriam assentiu cabisbsixa.
- Olha... eu ainda não te conheço direto. - Ana a observou. - Me fala um pouco sobre você.
Míriam sorriu e grudou suas mãos sobre a mesa.
- Bem... Eu tenho 17 anos e curto Rock... Moro com minha avó e tenho um irmão mais velho, que já é casado. E você?

Ana colocou um marca página no livro e o fechou.
- Tenho 16 anos e adoro música clássica... Vivo com meus pais e sou filha única.
- Que legal. - Míriam pousou seu rosto sobre a mão esquerda. - Qual série você faz?
- Primeiro ano do ensino médio, e você?
Míriam ri e balança a cabeça.
- Eu estaria no segundo se não fosse minha nota em matemática.
Ana solta uma risada.
- Mas bem, fazemos a mesma série em salas diferentes... - Míriam lamenta.
- É mesmo... - Ana sorri.

E por um tempo conversaram na biblioteca até o sinal tocar. Ana voltou para a sala feliz e animada. Havia feito uma nova amizade, e provavelmente a única por alí.
Míriam possuia segredos que te insegurava, ela não sorria sempre, e isso era uma oportunidade.


É mais que amiga

Depois daquele dia na diretoria, a vida das duas garotas Ana e Míriam não é mais a mesma. Uma amizade que cresceu fortemente e se tornou algo que mais temiam... 
Talvez seja apenas um sentimento bobo de paixão ou quem sabe mais do que isso ♡

          Primeiro capítulo 

Uma loira de olhos azuis estava em pé ao lado da mesa de Ana, olhando para aquele medo que transparecia no rosto da pobre menina dos cachos avermelhados. Segurando um diário e sorrindo friamente.
- O que foi? Vai chorar? - ela zombava.
Ana não respondia, seus olhos quase lacrimejavam.
- Uma página apenas... - sorriu a garota enquanto folheava o minúsculo caderno.

Ana ouvia risos por toda a sala, com a ausência da professora... Seu corpo esquentava à medida que cada palavra escrita por ela era dita...
- Hum, é apaixonada por Miguel... - a garota olhou para o jovem moreno que se cobria de vergonha - E também gosta de brincar com sua bonequinha de pano... Own que fofa. - fez um bico que levantou Ana da cadeira.
- Me entregue agora!
- Não vou.
As duas se encararam.
- Eu vou chamar a diretora! - Ana bufava.
- Ai ai... Coitadinha. - a outra revirou os olhos.
- Carol, se você não me entregar agora, vai se arrepender!
- Me diz o que você fará. - riu ela.

A turma silenciou, e Ana se aproximou mais da garota levando sua mão ao peito dela.
- Covarde... - rangeu após sentir a dor, e revidou outro tapa.

Quando a professora chegou as duas arrancavam os cabelos. Foram levadas por um corredor extenso da enorme escola. Ana sentou em um sofá que ficava em frente à sala do diretor, aguardando sua vez de relatar.
Suas pernas ainda tremiam de raiva, seus cabelos estava espantosamente bagunçados e seu uniforme azul amarrotado.
Ela olhava para a porta desejando que sua inimiga saísse chorando... Mas enquanto isso ela só ouvia passos se aproximando.
Um outro professor acompanhava uma aluna para o local, Ana observou e reparou que a garota estava incrivelmente estável, ao contrário dela. O professor fez a aluna sentar e entrou na diretoria.

Ana encarou o chão com uma vergonha intensa.
Estou horrível. Minha nossa.
A garota ao lado tinha um cabelo preto e curto e olhos castanhos, usava um blazer xadrez e uma bota quase velha. Seus lábios finos carregavam um batom aparentemente roxo escuro, e suas bochechas um tom rosado.
Ana olhou para si no reflexo de seu celular e viu apenas uma menina despenteada, com o rosto limpo e algumas espinhas brotando.
- O que aconteceu? - perguntou a garota ao seu lado

Ana passou a mão por seu cabelo e cerrou os dentes.
- Foi uma briga...
- Eita. Deve ter sido muito violenta. - riu ela.
- Nem tanto. Era pra ter sido mais... - Ana olhava para a porta. - E você? O que houve?
- Quebrei o nariz de um garoto.
Ana tapou a boca para conter um grito de espanto.
- Sério? Como?
- Ele estava me irritando, e não me segurei.

Carol saiu da sala sorrindo, jogando seu cabelo para o lado.
- Ana. É sua vez. - ela diz sombriamente.

Ana se levantou do sofá e olhou para a garota dos lábios roxos.
- Boa sorte! - riu ela.
- Para você também... - Ana riu e entrou na sala.

Ao sair, a garota ainda estava lá, Ana sorriu e disse aliviada.
- Estarei livre. - suspirou.
- Ah que bom. - ela riu.
- Até... - Ana se afastava
- Ei. Espere! - a outra levantou - Você não me disse seu nome.
- Ana, e o seu?
- Míriam. - seu sorriso se alargou.
Ana acenou com a cabeça e retornou à sala. 


29 julho 2020

La doña de la carta - capítulo doze

   Hasta el final del mes...
   Acho um tempo muito curto para arranjar tanto dinheiro assim.
   Meus olhos passeavam pelas paredes da enorme mansão da família. Uma cor púrpura em um tom bem escuro e chamativo, com móveis decorados por toda a sala. Uma empregada desce da escada ajudando María com as malas pesadas. A garota não estava mais com aquele vestido branco de seda, agora usava um casaco vermelho e uma saia aparentemente azul escura.

- Quero abaixar o preço. - digo deslizando meu olhar para seu pai que se aproximava de mim com a careta de sempre - É muita coisa para mim.

- Mil euros. - ele responde endireitando a coluna - E não se fala mais nisso.

   Assinto suspirando de alívio e sou surpreendido com o toque da mão de María em meu braço. Ela me olhava com uma certa admiração.

- Você é real?

- Sim, eu sou... - respondo sorrindo e vejo o homem ao meu lado se afastar tenso.

- Para onde vai me levar? - ela franze a testa confusa.

- Para minha cidade, em Ronda. Você vai gostar de lá.

- Lá tem cachorrinhos? - María pergunta com uma agitação na voz.

- Sim, por quê?

- Queria um... nunca pude ter... - ela encara o pai com os olhos sérios.

- Tudo bem, posso encontrar um para você. - rio assentindo com a cabeça.

   Após colocar as malas no veículo, María se aproxima do pai para dar um último abraço. Ele tenta recuar mas é pego de surpresa. Embora o homem tenha sido muito autoritário com a filha, ela não deixaria de amá-lo.
   Pedro nos esperava dentro do carro, apertou a buzina cinco vezes para nos apressar. Aquilo me deixava um pouco irritado mas nada retirava o sorriso estampado em meu rosto.

- Ao final deste mês! Não se esqueça. - meu novo sogro avisou antes de entrarmos no carro.

   Apenas concordei com a cabeça e seguimos rumo à avenida da cidade. 
   María olhava para a janela observando a paisagem enquanto eu aproximava meus dedos dos seus devagar.

- Não acredito nisso... Parece que ainda estou dormindo. - ela diz voltando seu olhar para o meu - Até ontem mesmo eu estava trancada em meu quarto chorando pensando em como escapar de tudo.

- É... e olha onde você está... - sorrio buscando uma forma de alegrá-la - ... indo à caminho da cidade mais formosa da Espanha.

- É mesmo? - ela arqueia a sobrancelha rindo - Ouvi dizer que é Barcelona.

- Ah... cada um tem o seu gosto né! - dou de ombros me encolhendo no banco.

   Os olhos de Pedro se encontram com os meus pelo espelho da frente e ele dá um piscadela para mim indicando algo. Demoro compreender o sua intenção e mordo meus lábios ao saber do que se trata, mas não queria deixá-lo de vela. Deslizo meu olhar para María ao meu lado e suspiro um pouco tenso.

- Você é muito linda. - as palavras saem de minha boca trêmulas.

- Obrigada. Você é muito elegante. - noto suas bochechas corarem.

- Você já... beijou alguém? - pergunto como se fosse algo importante para ser discutido.

- Já. - ela responde olhando para baixo - Por quê?

- Por nada... - balanço minha cabeça envergonhado.

   Ao menos eu sabia que a garota tenha se envolvido com outro alguém, mas eu não compreendia como isso seria possível se seu pai a isolava do mundo.

- Como foi? - pergunto voltando a olhar em seus olhos.

- Bem... nada tão romântico. Mas, prefiro guardar os rancores dentro de meu peito. - ela responde sorrindo para mim encostando sua cabeça em meu ombro.

   Minhas mãos deslizam por seus cabelos e inclino seu rosto para o meu.

- Suas letras são lindas. - digo fitando nossos olhares.

   Ela concorda com uma leve risada e deixo meus lábios se aproximarem dos seus. Um beijo é roubado suavemente enquanto saímos da belíssima cidade.

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La doña de la carta - capítulo onze

                         María Lina

   Minhas mãos estavam grudadas fazendo um gesto de oração e meus joelhos tocavam no chão duro e liso. Meu vestido branco e bordado me deixavam bela, meus cabelos presos em um coque também me dava um ar de elegância.
   Pero no estoy bien, ni feliz...
   Ouço as baladas do sino e ergo meus olhos à imagem da santa sobre a parede. Seguro minhas lágrimas para não borrar a leve maquiagem que fizeram em mim.

- Murillo... você existe? - pergunto em um sussurro abaixo a cabeça em seguida.

- María! Seu noivo chegou! - Ana, minha tia de 50 anos de idade se aproxima de mim com um sorriso encantador.

   Eu queria fingir que estava tudo bem, mas não dava para mentir. Meu olhar mostrada aflição e Ana notou pegando em meu ombro.

- Se levante garota. Hoje é um dia que toda dama sonhou em viver.

- Eu não amo aquele velho! - exclamo com o rosto úmido me levantando do chão segurando na barra do vestido.

- Mas ele vai lhe trazer um futuro próspero! Será digna de uma grande fortuna.

   Aquele olhar sádico dela me enojava. Não esperava ouvir tanta besteira da boca de uma pessoa que muito confiava.

- Eu não vou ceder a este casamento! - digo entre dentes correndo para uma porta que me levava para um corredor largo.

   As batidas do meu coração aceleravam com os passos rápidos. Eu pensei que estava livre até ver meu pai me pegar pelo braço com uma força brutal e me levar para fora da igreja. Seus olhos azuis escuros me encaravam com uma raiva nítida.

- Você não ousa me desafiar! Sou seu pai e mando em ti! - sua voz me dava medo e meus olhos marejavam. - Vamos! Já está na hora! - ele me puxava de volta para dentro da igreja pela porta da frente.

   Meus olhos deslizaram para os convidados surpresos. Não sabiam se estavam encantados com meu vestido ou assustados com meu rosto borrado. Agora eu parecia uma noiva prestes a desmanchar.
   Meu pai me guiava pelo tapete de seda com seus passos fortes. Eu só conseguia encarar os convidados mostrando à eles o quanto estava infeliz. Até que meus olhos se encontraram com os de um rapaz pálido. Seus cabelos castanhos escuros estavam bem penteados e sua roupa estranhamente diferente das usadas por homens da região.
   !Es él! Yo siento eso...
   Se fosse mesmo Murillo, seria capaz de me retirar deste lugar cruel e me levar para bem longe?
Vejo próximo ao altar um homem barbudo e enrugado me esperando com um sorriso no rosto. Abaixo minha cabeça para não encarar a imagem do meu noivo ridículo.

- Senhoras e senhores! - o padre exclamava para todos. - É com grande alegria que hoje celebramos esta bela união. Hoje o céu canta de alegria com esta data especial.

   Engulo as palavras ditas pelo padre como uma pedra descendo por minha garganta e viro meu olhar novamente para o rapaz assustado.
Eu estava tão concentrada nele que mal ouvia as palavras do homem de batina.


La doña de la carta - décimo capítulo

   Ela estava tão linda, tão incrível e perfeita. A cena dela agarrada ao homem idoso me deixava pálido e assustado. Ela chora, eu noto seu olhar úmido e tenso. Queria poder correr até lá, arrancá-la das mãos do homem que a faz ficar tão triste.

   Volto a me sentar no banco e deslizo meu olhar para seu pai, um senhor alto de cabelos quase brancos. Sinto um arrepio percorrer a minha espinha quando percebo seu olhos em mim.
   ¿Él me viste?¿Sabes quien soy?
   Aquele pensamento me assustava e eu estaria prestes a ser despejado por alguém que nem conheço. Ele demora notar que minha presença fazia a filha perder a atenção das palavras do padre, mas eu não me movia, fingia que era apenas um convidado qualquer e desviava meu olhar de María para não parecer que estava me importando.
   Eu esperei até o momento certo, até as alianças serem entregues nas mãos deles. O pulso forte que batia em mim aparentava sair pela boca. Meu olhos cravaram nos dedos frágeis de María, estendidos na mão do velho. Ele sorria olhando em seus olhos e repetia as palavras do padre.

- Você aceita ser minha mulher, na alegria e na tristeza, saúde e na doença até que a morte nos separe? - a voz rouca dele fazia a pobre garota chorar.

  Com um gesto rápido ela retira suas mãos da dele e balança a cabeça respondendo um NÃO bem alto. Meu olhos arregalam surpresos ao ver a cena e a vejo correr para fora quase tropeçando nos saltos. Os convidados se levantam assustados e começam a discutir uns com os outros.
  Antes que o pai da moça desse o primeiro passo para ir atrás da filha, saí da igreja com toda velocidade nos pés. Caminhando apressadamente até uma fonte no meio da praça onde se encontrava María sentada no chão chorando.

- Murillo... - ela sussurra levantando o rosto para mim mostrando as lágrimas escorrerem de seus olhos.

- Sim sou eu... María... - me abaixo para pegar em sua mão macia e trêmula.

- Por que demorou?

- A viagem foi longa. -  respondo ainda a olhando em seus olhos. - Mas estou aqui para o que precisar...

- Eu quero ir embora! - sua voz sai rouca e seu rosto empalidece ao ver o pai se aproximar de nós.

   O homem bufa me encarando furioso fazendo um sinal para que eu me levantasse do chão. Asinto me soltando das mãos de María.

- Quem é você? - ele me pergunta franzindo a testa.

- Me chamo Murillo Damasco. - respondo em voz baixa.

- O que quer de minha filha?

  Engulo um medo pretensioso e deslizo meu olhar para a moça sentada no chão.

- Quero ser o amor dela.

   A surpresa nos olhos dos dois revelam o quanto são parecidos. Embora a cor deles se diferem em um tom de azul e castanho. Ele me rodeia caminhando até a filha a pegando no braço e puxando para levantá-la. A jovem corresponde cabisbaixa ao ímpeto do pai.

- Isto é por ter me passado vergonha na frente de todos! - ele ruge pegando em sua orelha a beliscando forte.

  Mordo meus lábios no desejo de impedir mas sou obrigado a assistir o grito de María.

- Pai... - ela diz entre os dentes tampando a orelha dolorida com as mãos.

  Ele se volta até mim com seu rosto bem próximo do meu me encarando como uma fera prestes a me devorar.

- Faça o que quiser com ela! Leve-a contigo para o mais longe que puder! Essa menina só me dá trabalho.

  Me sinto gritar de emoção por dentro. Aquilo parecia ser mentira vindo da boca da pessoa que poderia me matar agora se quisesse. Como resposta assinto com a cabeça sorrindo.

- Mas quero um dote por ela! - aquelas  palavras fizeram o meu sorriso murchar e me afastei pálido.

- Qual o valor? - franzo minha testa desejando ouvir um preço baixo.

- 5 mil euros. É o suficiente para mim. - sua risada sombria dói como uma facada em meu peito.

- Onde vou arranjar tudo isso? - pergunto assustado.

- Não sei, mas quero este valor ainda no final do mês! - ele acrescenta se afastando de nós. - Ainda hoje faça suas malas! - é a última palavra que dirige à filha antes de vê-lo entrar novamente na igreja.


La doña de la carta - nono capítulo

   Depois de um banho relaxante visto minha melhor camisa, vermelha escura e uma calça preta. Penteio meu cabelo e passo um leve perfume.
   ¿Más para qué todo eso? Es sólo una viaje.
   Rio para mim mesmo e pego minha mala do chão. Caminho apressado até a porta da sala, abro e saio trancando a casa. Coloco minha mala no carro do táxi que me aguardava na rua ao lado.
   Ao me sentar no banco de trás, procuro no bolso da calça uma carta de María e a mostro para o taxista indicando o endereço. Ele assente e começa a dirigir.
   Eu tentava manter minha empolgação discreta. Olhava para as ruas sorrindo, admirando o sol daquela bela manhã. A movimentação da cidade estava maior naquele dia e por muita coincidência eu saía dela naquele exato momento. Muitas pessoas andavam na avenida, carros circulavam todas as ruas. Me ajeitei no banco e encostei minha cabeça nele. Fechei os olhos um pouco para poder imaginar o rosto de María Lina.
   Após quatro horas de viagem, paramos em um hotel para passar o dia. Aproveitei para escrever uma carta avisando à ela que logo chegaria... Caminhei até um correio próximo e deixei a correspondência.
   Acordamos bem cedo no dia seguinte e tomei um rápido café da manhã. O taxista ficou muito tempo dirigindo, às vezes paravamos para comer ou apreciar a paisagem das belas cidades por onde passamos. O homem se chamava Pedro, criamos até uma amizade rápida durante a viagem.
   O céu escurecia com o entardecer e a chuva veio logo em seguida atrapalhando nossa vista na estrada. Os pneus escorregavam levemente no chão molhado e eu ficava cada vez mais apreensivo. A noite chegou e as nuvens se espalham no céu dando vista às estrelas mostrando um horizonte belo, onde a cidade destino se erguia conforme avançamos.
   Entramos no centro da bela cidade cheia de construções antigas e monumentos exuberantes. Observo pela janela do carro admirado com tamanha beleza. Passamos em uma rua da periferia e seguimos para uma avenida torta onde situava um outro hotel em que pousaremos.
   Pedro estacionou o carro e desci logo em seguida. Meu corpo se agitava de emoção e ansiedade. Eu não conseguia pensar em mais nada além da bela jovem das cartas.
   ¿Pero es realmente hermosa?
  Este pensamento me fazia rir e balanço a cabeça afastando essa hipótese. Passei a noite caminhando pelas ruas de Nerja, os comércios fechavam tarde da noite, havia muita agitação na praça e pessoas andando de um lado para o outro apressadas.
   Meus olhos procuravam por María por todos os cantos, mas só depois me lembrei que ela não estaria aqui, seu pai a trancou dentro de casa. Mas o que eu poderia fazer para ve-la?
  Tal vez alguien a conoces.!Sí! Es posible!
   Sorrio com esta ideia e sigo para uma loja de cosméticos que estava perto de fechar. Uma mulher de cabelos grisalhos com rugas pelo rosto me recebeu sorrindo.

- Olá! Como posso ajudar?

- Oi... eu... estou procurando por uma moça chamada María Lina. A senhora a conhece? - pergunto olhando em seus olhos sentindo algum tipo de esperança.

- Ah sim, claro que a conheço. Ela vai se casar amanhã cedo e viajar com o noivo para Madri. - ela me responde com um largo sorriso. - Por que deseja saber dela?

   Meu coração pulsa mais forte com um sentimento duro e triste, meu olhar se torna pálido e me afasto um pouco da mulher.

- E... onde será o casamento? - minha voz vacila trêmula.

- Vai acontecer na capela aqui da praça! - ela aponta com o dedo para a bela construção rodeada de postes luminosos.

- E que horas? - volto meu olhar para ela tenso.

- Vai ser a partir das 9. - ela nota um pavor em meus olhos e saio da loja em seguida.

  Caminho de volta para o hotel apressado passando as mãos pelo cabelo. Meu dia estava acabando ali, mas eu possuía apenas algumas poucas horas antes do triste acontecimento.


La doña de la carta - oitavo capítulo

   Meu patrão me deu quarto dias para que eu pudesse viajar. Eu já estava ancioso para conhecer a moça das cartas. Preparei minha mala e deixei tudo organizado. Olhei para mim no espelho e não vi mais aquele jovem triste e melancólico, havia um sorriso de esperança que renascia nele.
  Passei novamente pelo armazém para trabalhar um pouco mais apressado. Eu fazia até parte das atividades que eram até então do meu patrão. Os clientes não paravam de entrar, o que por um lado era bom. Minha camiseta azul escuro estava imunda de pó devido aos pacotes que carregava de um lado para o outro.
   Ao terminar meu serviço, um pouco antes de sair do armazém, Larissa apareceu com uma blusa branca e uma saia florida. Estava tão linda mas também muito triste. Seus olhos lacrimejavam e seus cabelos estavam bagunçados.

- Murillo... - ela disse suspirando. - Podemos conversar?

- Sobre o quê? - arqueio minha sombracelha intrigado.

- Sobre nós. - seu olhos brilhavam úmidos. - Eu errei... Eu sei que fui péssima...

- Pare por favor! - a interrompo - Eu não quero saber dos seus lamentos. O que aconteceu passou, isso não vai se apagar no tempo. 

- Murillo... eu... 

- Por favor Larissa! Já chega! Você não está feliz com seu novo namorado? - pergunto entre dentes.

- Nós terminamos... E... eu ainda te amo! - ela diz enxugando as lágrimas.

- Me ama? - digo irritado - Como pode me amar depois de trair? - paro tentando me acalmar.

   Larissa me encara séria e sai do armazém. Passo a mão pelo rosto tenso e vejo meu patrão se aproximar sorrindo.

- Não fique assim garoto! A vida ainda vai te recompensar. - ele bate no meu ombro e se afasta em seguida.

   Volto para casa confuso e me sento na cama. Olho para um retrato de meus pais no criado mudo e pego. Acaricio o rosto de minha mãe e deixo uma lágrima cair sobre o vidro. Lembrei do dia em que fui informado por alguns amigos sobre o acidente que meus pais haviam sofrido na viagem para a França.
   Deixo o retrato no lugar e aguardo aquele dia ruim passar.

La doña de la carta - sétimo capítulo

   Depois eu finalmente consegui escrever para María perguntando sobre como era seu rosto e seus cabelos.
   Quando finalmente a noite chegara, decidi passear pelos becos da cidade e ver meus amigos que há um bom tempo não tinha contato. Fernando estava sentado em um banco de madeira próximo a porta de sua casa. Ele bebia cerveja olhando para as ruas.

- Olá! Como está a vida? - me aproximo sorrindo.

- Muito boa! E a sua? - ele responde ao terminar de ingerir mais um gole.

- Não muito bem...

- Mas tem alguma novidade? Faz tempo que não nos vemos.

- Sim. Você tem razão! Mas nada de interessante ocorreu comigo. - minto ao lembrar das cartas de María.

- Que pena, pois eu tenho muito o que lhe contar! - ele dis empolgado.

- Sério? Me diga! - fico impressionado e me sento ao seu lado ouvindo atenciosamente.

   A noite ia passando e eu esquecendo as horas. Quando retornei para casa já estava tarde, mas me sentia bem melhor depois da longa conversa com meu amigo e do jantar preparado pela mãe dele.
   Tirei minha camisa e deitei-me na cama. Me cobri com o cobertor e olhei fixamente para a parede tentando imaginar nas inúmeras respostas que María daria.

   O carteiro agora me vê e solta uma leve risada, sabendo de minhas correspondências tão secretas com a moça que eu nem conhecia. Pego o novo envelope com um laço vermelho e passo o dinheiro para o rapaz.

- Logo logo você se apaixona! - ele ri ao pisar no pedal da bicicleta.

   Nego com a cabeça sorrindo, mesmo sabendo que isso poderia ser real. E porque de fato eu estava nutrindo algum sentimento pela garota misteriosa.

- Eu mal posso esperar para conhecê-la! - digo animado.

- Boa sorte! - ele acena para mim e se afasta.

- Obrigado! - aceno de volta entrando na casa e fechando a porta.

   Abro a carta ancioso e me sento no sofá.

    "Soy blanca de ojos castaños e cabello oscuro e ondulado. Sé que esto parece muy tenso, pero no puedo esperar más. Mi padre ya marcó mi casamiento para esta próxima semana. Estoy triste..."

   Meu coração se agita ao ler sua mensagem e olho ao redor sentindo uma pontada de desespero surgir.
   Tengo que ayudar.
   Me levanto do sofá agitado e olho para o calendário na parede ao lado. Procuro uma maneira mais fácil de poder viajar para a cidade dela. Pego meu então esquecido telefone, que há um bom tempo não utilizo e ligo para meu patrão.

  


La doña de la carta - sexto capítulo

   María é rápida nas cartas, isso mostra claramente o seu desespero em sair daquela situação que a prende. Se ao menos eu pudesse ter a certeza de que não estaria sendo enganado.
   Ela respondeu minha piada anterior, eu lia suas palavras tentando imaginar como seria seu rosto.

   "Murillo, parece muy engrasado... Yo no quiero imaginar cómo son los hombres en Ronda. Pero espero que no seas así también."

   Rio com seu comentário e balanço a cabeça. Se ela deseja que eu não seja feio como os outros... Ela pode estar curiosa com minha aparência como estou por a dela
   Durante o intervalo do trabalho, me sentei em uma cadeira perto do balcão onde atendia aos clientes e peguei outro papel para escrever uma pergunta para ela. Eu fazia de cada letra um capricho perfeito para impressionar a garota que estava do outro lado da correspondência.

- Murillo. - uma voz feminina tirou minha atenção.

   Olhei para ela. Larissa, usando um vestido rosa e seus cabelos loiros presos em um coque belo. Tento ignorar sua presença mas o perfume que exalava me desnorteava.

- Precisa de algo? - me levanto da cadeira a olhando profundamente.

   Noto um corar em suas bochechas e a palidez de seu olhar.

- Vocês vendem abajur dourado?

- De várias cores. - tento não mostrar minha aflição para ela.

- Poderia me mostrar?

- Claro. - assinto a levando até uma prateleira onde ficavam os abajures.

   Larissa olhava para eles fingindo não notar minha presença. Tento me concentrar para a tratar apenas como uma cliente qualquer mas o meu desejo é de afastá-la de perto.

- Quero este! - ela indica o objeto com o dedo e abre sua bolsa. - Quantos custa?

- 40 euros. - respondo cabisbaixo e recebo o dinheiro de sua mão tão fria.

   Embrulho sua compra e ao lhe entregar percebo um leve sorriso em seu rosto. A vejo sair do armazém com passos lentos e uma sensação de alívio toma conta de mim.


La doña de la carta - quinto capítulo

   Eram apenas seis horas da manhã, dois dias após eu ter escrito aquela carta. Encontrei a correspondência em meu correio no quintal e sorri ao ver o encanto que a envolvia. Era um laço verde... e cheirava à jasmim.
   Qué bueno perfume...
   Abri ela ali mesmo, e minhas mãos tremeram...

    "Tengo dieciocho años... Soy hija de un haciendero y estoy novia de un señor que está acerca de morir. Esto és horrible! No quiero vivir com él. Mi padre no me deja salir... Él no quiere que yo escape."
 
   Fico impressionado com aquela história e entro na casa apressadamente. Sento numa poltrona e tento processar tudo aquilo. A pobre moça ia se casar com um velho, e seu pai não a deixava sair de casa. Senti pena dela e suspirei fundo.
    ¿Lo qué voy hacer?
   Escrevi outra carta perguntando sobre como era sua casa, e como esse seu noivo era. Disse à ela que poderia confiar em mim e faria o possível para ajudá-la.
   Nesta noite, passei novamente no bar, tomei doses suficientes para me deixarem desorientado. Quando voltei para casa, já era meia noite, minha cabeça doía e meu hálito estava péssimo. Me encarei no espelho e tive ranço de mim mesmo.
   Me lembro de ter batido minha mão contra a parede e xingar várias vezes, até sentir uma exaustão e sentar no chão. Meus músculos se relaxaram e peguei sono mais rápido que o normal.
    Passei a trabalhar mais apressadamente para poder chegar em casa mais cedo e ler as carta de María.
   Deitei-me na cama e peguei o belo papel dobrado com um laço amarelo. Sorri ao ver a simpatia da moça em querer mudar de cor toda vez...

   "Yo no tengo amigos... vivo com mi papá, en una mansión. Nuestra casa está al final de un extenso bosque. Aquél señor que voy me casar, es barbudo e calvo! Se tu veas cómo es feo ría conmigo. "

   Não consigo conter uma risada. Ela parece simpática! Me sento e pego outra folha e uma caneta. Escrevo que achei muito engraçadas suas palavras e brinco dizendo que os homens da minha região podem ser ainda mais feios que aquele.


La doña de la carta - quarto capítulo

   Após três dias, o carteiro apareceu novamente em minha porta me entregando um envelope decorado com um laço rosa. Agradeci e entreguei o pagamento.Peguei um copo com água e sentei-me em meu confortável sofá. Desamarrei o laço e abri a correspondência. Me hidratei um pouco antes de começar a ler, tremendo de ansiedade.

"Hola. Estoy presa en mi casa, mi padre me castigó y no puedo hacer nada. Quiero mucho poder confiar en tú.
María Lina..."

   Senti como se uma pedra estivesse a ponto de cair sobre minha cabeça. Minha respiração ficou intensa e encarei a parede cor de marfin.
   Ella necesita de mí...
   Como vou confiar numa carta que não sei a prova de quem realmente a escreveu?
   Deixei ela sobre a estante da sala e saí para trabalhar. Aquilo era como um fantasma que me assombrava onde quer que eu esteja. Não contei a ninguém sobre ela, é um sigilo meu.
   Após sair do trabalho, caminhei sobre as velhas estradas de Ronda para me tranquilizar um pouco. Sentir a brisa do outono foi um dos melhores prestígios daquele momento.
   Ao retornar para casa, peguei um caderno de anotações e uma caneta. Preparei um chá da tarde e sentei-me na mesa da cozinha, logo comecei a escrever perguntas aleatórias... Eu estava cada vez mais irritado. Rasgava folhas, outras vezes amassava. Não sabia ao certo o que dizer...
   Olhei para a janela e vi os galhos das árvores movimentarem ao vento. Uma onda de alívio tomou meu corpo e encarei novamente a caneta.
Quando terminei, fiz questão de ler minhas próprias palavras para ter certeza de que nada seria mal compreendido.

   "Mi nombre es Murillo Damasco, tengo veinte e dos años. Yo vivo sólo en mi casa, no tengo nadie que puedo ayudar usted... Y vivimos distante. Necesito saber más sobre tú. Me diga todo lo ocurrido."

   Esperei a chegada do carteiro novamente e entreguei o envelope. Senti um frio na barriga e me agitei na esperança de poder ver onde isso ia dar...


La doña de la carta - terceiro capítulo

   Recebi um convite para assitir uma apresentação de orquestra na praça. Coloquei meu melhor casaco, azul marinho, e saí de casa assim que deu sete horas da noite.
   A praça estava um pouco cheia, haviam pessoas de outros lugares e todas as idades. Algumas mães abraçadas às crianças aguardavam o início do evento.
   Sentei-me em um banco de madeira e observei os musicistas pegando seus intrumentos com delicadeza. Uma jovem passou por mim... Seus cabelos loiros ondulados e seu vestido verde Tiffany me deixaram sôfrego.
   No seas idiota. Quítate de tu corazón!
   Como sempre, Larissa foi linda, ou mais que isso, um paraíso em forma humana.
   Ela faz questão de me encarar, mas não compreendo seu olhar triste, foi a mim quem magoou. Um rapaz pega em sua mão, e lhe beija suavemente no rosto. Sinto uma batida no peito e um desejo de sair... Mas não posso dar ao prazer de mostrar minha dor.
   Fue él... Quién me tomó el amor...
   O que ele tem que eu não possuo?
   Quando o maestro fez sinal para começar, meu corpo se agitou ancioso. Tentava ignorar a cena ao lado e focar na bela canção... Mas meu espírito parecia distante.
   O som da música clássica permaneceu em minha cabeça, deitada no travesseiro, úmido de lágrimas. Lembranças que me corroíam, que eu implorava esquecer.
   Olhei para a flor na cabeceira e pensei na carta.
   Estoy inseguro...
   E outra vez peguei no sono...


La doña de la carta - segundo capítulo

   Meu chá doce... como eu gosto... bebo ligeiramente e ainda repito a dose. Saio para trabalhar em um armazém aqui da vila, uma venda de móveis e decorações para casas.
   Meu patrão é um moreno barbudo, a mercadoria é dele e a cada item que eu conseguir vender recebo 20 euros.
   A maioria dos fregueses passam apenas para observar, outros conversam comigo enquanto os atendo. O trabalho me distrai para que eu possa esquecer as coisas... Ou talvez tente.
  Uma senhora com um vestido vermelho e florido me perguntou o preço de um lustre e pediu para que eu anotasse o nome dela no boleto de pagamento.
- María Hernandez... - ela sorriu
   María... María...
   Este nome me lembrou algo, e quase atrevi a perguntar para ela sobre a carta. Mas não... seu sobrenome era outro.
- Obrigado senhora. - entreguei-lhe um comprovante.
   Ao entardecer, procurei pelo mapa da província de Málaga o endereço da carta... Um município chamado Nerja um pouco distante daqui.
   Pienso en escribir una carta para ella e descubrir la verdad...
   Mas não a conheço, nem sabereis sua atitude. É estranho que ela revele sua condição para o mundo afora, onde o rumo e a direção que levara o balão era incerto.
   Peguei uma caneta e um papel amassado, e escrevi com poucas palavras uma resposta para aquela mulher desconhecida...

   "Hola, no sé que te pasas. Pero se tener algo que puedo ayudar...
     Lote 23, - Ronda - Málaga - ES."

   Guardei seu bilhete dentro de um envelope e colei à minha carta. A flor deixei em minha mesa...
   O carteiro passou por minha porta e entreguei a correspondência.
- Por favor, quero que isto chegue até Nerja.
- Tudo bem, pode deixar... - ele acenou com seu boné e voltou a pedalar.
   Senti um minúsculo pavor, e me deitei sobre a cama macia...
   Necesito de un bueno cochilo.


La doña de la carta

A história se passa na Espanha, em uma época passada, quando a carta ainda era muito utilizada com meio de se comunicar com quem estava distante. Murillo é um rapaz órfão, vive sozinho na casa deixada por seus pais. Depois de uma inconformável traição, ele encontra uma carta escrita por uma moça que ele não conhece, de uma cidade distante. Ele deseja muito conhecer a moça e ajudá-la a salvar de um infeliz casamento...

Primero capítulo:

   Um chá quente para me acalmar... mesmo que eu não consiga me esquecer do dia anterior...
   Larissa, ainda lembro de nossos beijos, do calor da lareira enquanto líamos um poema de seu pai. Era tudo tão bom, que parecia mentira. Mas agora sei que é... Porque eu a vi exatamente naquele local, com outro alguém do seu lado. Eu não disse nada, porque minha palidez impedia, mas agora sinto pena de mim mesmo... Eu podia ter falado o quanto aquilo foi ruim... mas preferi o silêncio.
   Encaro o espelho para enxergar além do homem de olhos castanhos e cabelo escuro, um jovem inconsolado. 
   Tu es hermoso!
   Eu sei disso... e não devo me abalar.  Abro meu armário e escolho um casaco marrom casual, uso do meu melhor perfume e penteio meu cabelo para trás.
   Tenga una buena noche, señor. Digo para mim mesmo.
  Em uma noite tão fria, saio de minha casa à procura de um bar ou um lugar para viver. A rua não está movimentada, o outono não parece ser uma época boa para sair, e não há muito o que fazer numa cidade pequena como Ronda. Seus pequenos vilarejos de casinhas brancas e uma população simpática me despertou desde sempre o desejo de permanecer até o fim de minha vida.
   Um pequeno bar aparece à direita da rua... poucos são seus clientes. Entro e aceno com a cabeça para alguns conhecidos.
   Soy el más nuevo aquí.
   Todos esses homens chegam próximo aos quarenta anos. O barner é um senhor careca barrigudo, sempre com um sorriso largo no rosto. Me sento à uma cadeira próxima do balcão e peço uma bebida forte... da qual poucos encaram tomar.

- O que houve rapaz? - ele me encara rindo.

- Dias terríveis! - tomo um gole que desce rasgando.

  Sinto minha garganta ranger, insuportavelmente.

- Foi uma garota? - ele coça a cabeça.

- E isso importa? - pergunto irritado.

- Ouço histórias cabulosas, mulheres fazem parte de todas. - sua risada é ridícula.

- Estou indo. - digo sentindo minha cabeça doer.

- Mas já? Tome mais um pouco para esquecer la chica !

- Não. Obrigado. - me levanto e entrego o dinheiro, caminho em direção à saída.

   Aquela bebida me deixou um pouco zonzo... pois ando pela rua enxergando as luzes rabiscarem o horizonte. Prefiro olhar para o chão para ter cuidado de não tropeçar, um deslize e vou ao chão. Me sinto muito inseguro agora... não quero cair.
  Um balão pequeno balança sobre o vento... e desce suavemente até chegar à minha frente. Abaixo e o pego. Vejo um bilhete amarrado e uma flor presa ao laço.
   Qué es esto?
   Me atrevo a ler a mensagem do lado de fora...

   "De María Lina para quien está leyendo..."

   Interessante ver uma carta pairar no céu e cair em lugar inesperado. Cheiro o envelope e passo a mão pelas dobras. Quem é a garota que escreveu isto? Esse perfume tão doce e uma flor dos belos campos espanhóis?
   Era para esta carta estar aqui? De onde veio?
   Olho para cima e só vejo as estrelas, e quase me esqueço que estava indo para casa. Levo comigo o bilhete e a flor... deixando para trás a bexiga e meus pensamentos melancólicos.

                             ***

   Sento em minha poltrona e analiso a folha. Abro o envelope e leio atenciosamente...

   "No sé quien leerá esto... Pero estoy procurando por ayuda. Estoy presa en mi casa e no puedo salir para hacer nada..."

   Fico espantado com as palavras desta desconhecida mulher. Sinto uma insegurança e um medo percorrer ao meu redor. Era um pedido de socorro ou uma piadinha de mal gosto?
   Largo a carta encima de meu criado-mudo e meus pensamentos voltam no dia anterior... Quase choro novamente.
   Entro em meu quarto e deito minha cabeça no travesseiro, cobrindo meu corpo com o veludo cobertor. Meus olhos se fecham aos poucos e me deixo repousar...

   

  
    



Sobre o Blog

Este é o meu blog principal onde postarei algumas das minhas histórias que também estarão disponíveis no Wattpad - @IamGilvia

Provavelmente teremos um capítulo novo lançado à cada semana ou pode ser que não demore muito :)

Espero que gostem, em breve teremos vários temas propostos de histórias, deixe suas sugestões nos comentários ♡



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