29 julho 2020

La doña de la carta - décimo capítulo

   Ela estava tão linda, tão incrível e perfeita. A cena dela agarrada ao homem idoso me deixava pálido e assustado. Ela chora, eu noto seu olhar úmido e tenso. Queria poder correr até lá, arrancá-la das mãos do homem que a faz ficar tão triste.

   Volto a me sentar no banco e deslizo meu olhar para seu pai, um senhor alto de cabelos quase brancos. Sinto um arrepio percorrer a minha espinha quando percebo seu olhos em mim.
   ¿Él me viste?¿Sabes quien soy?
   Aquele pensamento me assustava e eu estaria prestes a ser despejado por alguém que nem conheço. Ele demora notar que minha presença fazia a filha perder a atenção das palavras do padre, mas eu não me movia, fingia que era apenas um convidado qualquer e desviava meu olhar de María para não parecer que estava me importando.
   Eu esperei até o momento certo, até as alianças serem entregues nas mãos deles. O pulso forte que batia em mim aparentava sair pela boca. Meu olhos cravaram nos dedos frágeis de María, estendidos na mão do velho. Ele sorria olhando em seus olhos e repetia as palavras do padre.

- Você aceita ser minha mulher, na alegria e na tristeza, saúde e na doença até que a morte nos separe? - a voz rouca dele fazia a pobre garota chorar.

  Com um gesto rápido ela retira suas mãos da dele e balança a cabeça respondendo um NÃO bem alto. Meu olhos arregalam surpresos ao ver a cena e a vejo correr para fora quase tropeçando nos saltos. Os convidados se levantam assustados e começam a discutir uns com os outros.
  Antes que o pai da moça desse o primeiro passo para ir atrás da filha, saí da igreja com toda velocidade nos pés. Caminhando apressadamente até uma fonte no meio da praça onde se encontrava María sentada no chão chorando.

- Murillo... - ela sussurra levantando o rosto para mim mostrando as lágrimas escorrerem de seus olhos.

- Sim sou eu... María... - me abaixo para pegar em sua mão macia e trêmula.

- Por que demorou?

- A viagem foi longa. -  respondo ainda a olhando em seus olhos. - Mas estou aqui para o que precisar...

- Eu quero ir embora! - sua voz sai rouca e seu rosto empalidece ao ver o pai se aproximar de nós.

   O homem bufa me encarando furioso fazendo um sinal para que eu me levantasse do chão. Asinto me soltando das mãos de María.

- Quem é você? - ele me pergunta franzindo a testa.

- Me chamo Murillo Damasco. - respondo em voz baixa.

- O que quer de minha filha?

  Engulo um medo pretensioso e deslizo meu olhar para a moça sentada no chão.

- Quero ser o amor dela.

   A surpresa nos olhos dos dois revelam o quanto são parecidos. Embora a cor deles se diferem em um tom de azul e castanho. Ele me rodeia caminhando até a filha a pegando no braço e puxando para levantá-la. A jovem corresponde cabisbaixa ao ímpeto do pai.

- Isto é por ter me passado vergonha na frente de todos! - ele ruge pegando em sua orelha a beliscando forte.

  Mordo meus lábios no desejo de impedir mas sou obrigado a assistir o grito de María.

- Pai... - ela diz entre os dentes tampando a orelha dolorida com as mãos.

  Ele se volta até mim com seu rosto bem próximo do meu me encarando como uma fera prestes a me devorar.

- Faça o que quiser com ela! Leve-a contigo para o mais longe que puder! Essa menina só me dá trabalho.

  Me sinto gritar de emoção por dentro. Aquilo parecia ser mentira vindo da boca da pessoa que poderia me matar agora se quisesse. Como resposta assinto com a cabeça sorrindo.

- Mas quero um dote por ela! - aquelas  palavras fizeram o meu sorriso murchar e me afastei pálido.

- Qual o valor? - franzo minha testa desejando ouvir um preço baixo.

- 5 mil euros. É o suficiente para mim. - sua risada sombria dói como uma facada em meu peito.

- Onde vou arranjar tudo isso? - pergunto assustado.

- Não sei, mas quero este valor ainda no final do mês! - ele acrescenta se afastando de nós. - Ainda hoje faça suas malas! - é a última palavra que dirige à filha antes de vê-lo entrar novamente na igreja.


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